Friday, June 27, 2008

Revolvendo o baú arcaico – VII – Onde?
Como é ingrato pertencer a este tempo!
Relembro os lugares que tu pisaste. Comigo.
Piso-os agora… sozinho…
Não te vejo nos lugares dos quais já fazes parte…
Lembro-me deste jardim… Lembro-te perdida nele…
E agora? Tão vazio! Eu.
Lembro-me dos claustros. Contigo.
Abro os olhos e a arquitectura é dor.
Já nem me apraz a arte…
Lembro-me desta grande passagem…
Lembro-te sentada nas escadas que lhe acedem…
Estavas perfeita, como hoje…
Na minha memória…
É ingrato ser só quando já fui algo…
Vim à tua procura… não te encontro…
Corro, impaciente, a outro lugar…
Onde estarás tu?
Onde estarás… tu?
Que é feito da presença que a fotografia guardou destes lugares?
Que é feito da minha vida?
Que é feito da vida que derramou vida sobre esta pedra?
Que é feito da vida que estas letras desposam?
Uma vez mais me ajoelho perante ti e choro…
Onde estarás tu?
Onde estarás… tu?

Ariel d’Angoulême

Friday, June 20, 2008

Éter na mente...
Esta noite não durmo.
Toldado pela problemática da eternidade.
O tempo passa e há dias em que o lembro. Não pára nunca.
Os nossos semelhantes ocupam-nos com invenções e vícios que nos libertam da sensação de não viver por um momento, juntando-nos, para mal da consciência, ao rebanho que se ocupa dos mesmos males de faz-de-conta.
Eu morrerei…
Tu morrerás…
Ele morrerá…
Nós morreremos…
Vós morrereis…
Eles morrerão…
E só o negrume e o nada permanecerão…
Ad aeternum… para sempre… sempre… sem pressa…

Esta noite não durmo.
Desde a minha infância que me atormento com pensamentos de eternidade vazia.
Sem ninguém para criar futilidades interessantes… alguma história…
Algum amor… descobri-lo…
Não vejo nem suponho eternidades humanas. Ou desumanas.
Vejo uma eternidade de que só o Nada é senhor. Repito-me.
Não me apoquenta a morte. De forma alguma.
Apoquenta-me desconhecer morte que leve tudo o que conheço.
A escuridão total do universo.
Os pontos que cintilam, efémeros, de oportunidade.
A vida depois da vida… ou o que resta de tudo o que foi… mesmo antes de o ter sido.
Não me interessa de todo o começo.
Só a falta de um fim…

Esta noite não durmo…
É uma de entre tantas outras coisas que não faço.
O entusiasmo pela paranóia que me define…
E ao invés de me ocupar com algo que me salve… definho na temática…
Eu morrerei… tu morrerás… ele… …
…menos o todo.
Eu morrerei quando tu morreres porque ele nunca soube quem fui.
Perdido na memória… perdido para sempre…
Mas não me apoquenta a morte. De forma alguma.
Apoquenta-me desconhecer morte que leve tudo o que conheço.

Não pode simplesmente o universo dobrar-se como um tapete onde os putos despejaram os brinquedos favoritos?
Não pode simplesmente ser levado embora para que outro tapete se estenda em seu lugar?
Foda-se! Como odeio estas noites!

Ariel d’Angoulême

Monday, June 9, 2008

“Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele.
Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida.
Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais… A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino…”

Fernando Pessoa

Thursday, June 5, 2008

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