Pedaços de Moleskine
(des)ordenados pela insanidade... como sempre....
I – O amor é lindo…Quem não foi talhado para uma relação, pura e simplesmente, não deveria aventurar-se numa.
Quem se compromete, sem mérito, sofre as devidas consequências.
Quiçá o peso das consequências que causou.
É justo que assim seja.
Este é o lado verdadeiro das coisas. Nada mais.
O amor não existe. O que existe é um pedaço de nós que alguém deseja e que decidimos alugar a troco de normalidade efémera.
Depois retirámo-nos.
Retirámo-nos desse lugar a que nunca chegamos a pertencer.
Retirámos, do mesmo modo, o que deixou de pertencer a outrem para se tentar ligar a nós.
Esse pedaço que recusámos e fica perdido em lugar nenhum.
Esse gemido de dor que não é nosso mas por nós.
Essa dor que nunca teve crédito para se fazer ver ou sentir.
Essa vontade de viver que foi e já não é.
Porque a crueldade de alguns atinge a perfeição.
E é por isso que existem lobos.
E é por isso que existem presas.
O amor não existe. O que existe é uma necessidade egoísta de se fazer acompanhar sem acompanhar.
De se fazer desejar sem desejar.
E depois há quem acredite no amor.
A maioria.
Nunca acreditei na maioria.
II. Acerca do suicídio… um pouco como anteriormente…
Pois bem, caro amigo. Deseja saber qual a diferença entre mim e um suicida?
Bem… Um de nós teve de cometer um crime para passar à condição de morto.
III. Há dias assim!
Os ventos sopram…
Tenho folhas a dançar sobre as folhas dos meus cadernos.
Vidas que se desprendem e dançam sobre os meus apontamentos.
Sobre as minhas mentiras.
Ilusão do que pretendo ser.
Ilusão do que pretendo dizer ser.
Não me leio e nada me preocupa.
Os ventos sopram…
Rasgam-me a roupa.
Reabrem as feridas que me adornam as mãos.
Lavam-me o rosto com a chuva da alma.
Tento levantar-me.
Tenho de levantar-me!
Descolar o corpo esguio da lama.
Tento lembrar-me de como tudo sucedeu sem esquecer os detalhes relevantes.
Falho.
Falho redondamente.
Do chão. No chão.
Eu, despido… falho redondamente.
Tenho folhas de cadernos a dançar sobre mim.
Outras rastejam até mim.
Feridas literárias.
Queria paz!
Os ventos sopram.
Queria levantar-me…
Falho redondamente.
E as páginas voam…
Página 1…
Página 2…
Página 3…
4,5,6,7,8,9,10…
E tudo o vento levou.
IV. Desejo…
Hoje apetece-me a noite da velha Londres.
V. Casa de chás…
O som possui contornos…
Vislumbro… deslindo…
A melodia fez-se palpável.
Sinto-a a cada arrepio.
As letras dançantes…
Mil noites distantes…
E o som das marés…
O gemer dos violinos…
Violência romântica.
O cheiro de cinco continentes
num só bule, de um só trago.
Memórias de mundos que trago em mim.
Que revivo na casa de chás.
A subtileza deslizando… subtil.
Fuga pela incerteza. Fugitivo… incerto.
Desperto? Ai de mim.
A textura das pétalas nas pétalas
que eram os dedos das tuas mãos.
Da tua flor perfeita.
Marcada ainda pelo odor de mim.
Pétalas. Pensamentos.
O que é, é… e será…
Pois continuemos, minha querida.
Desfruta do som, do aroma, do agora.
Antes que se abra a porta
E nos mandem embora.
VI. Mortos
Esfaqueei um Moleskine.
Num acesso de raiva. Esfaqueei a minha língua Moleskine.
Deixei que sangrasse sobre a cama,
Tingindo os lençóis de luxúria.
O prazer da mentira.
Devo estar louco!
Estes actos demoníacos dão-me prazer.
Estou assim. Ou sou assim?
Demasiadamente possesso por mim.
Demasiadamente… outros.
VII. …
Apeteceu-me um ponto VII apenas.
Já me cheira a férias.
E a isolamento.
Ariel d’Angoulême
