Long Forgotten
I.
[pensamento]
A arte não reside no que se vê, antes no que provoca.
II.
[o meu tempo pára]
O meu tempo pára.Pára para que sinta tudo. Uma vez apenas.
E tudo se me parece indiferente.
É só o meu tempo a parar. Nunca eu.
Não paro para ver. Vejo enquanto passo.
Não paro para sentir. Sinto enquanto faço.
Não escuto, não articulo uma palavra sequer.
Tenho tudo dentro de mim.
Num dia apenas guardo o mundo.
Nos outros sou só eu.
Não há nada mais para ver. Ou viver.
Já tudo fora sonhado.
Quantas vezes traçado!
Quantos pores-do-sol!
Euforia de segundos que ardem em lado nenhum.
Quantos céus estrelados!
Quanta obra por homens feita!
Ausência permanente de deus nas coisas.
Guardo o mundo em tempo zero.
Porque nada lhe pertence.
E tudo se me parece indiferente.
O meu tempo pára. Nunca eu.
III.
[pensamento]
Se há coisa que considero inadmissível é que me confundam comigo.
IV.
[restos]
Resta-me este canto…
O aconchego… sossego…
Restam-me as promessas quebradas…
Que um dia sonhei… acreditei…
Resta-me esta melodia…
O pranto… ténue encanto…
Restam-me as lembranças tatuadas…
Que um dia evitei… alcancei…
Resta-me esta dor…
Este gosto… desgosto…
Restam-me as noites eternas…
Dias que tive… detive…
Resta-me o consolo…
A solidão… não…
Um resto de restos… me restam…
Restos do que vivi… em ti…
V.
[pensamento]
Não sei porque não me permito a vida se isso é tarefa que cabe à morte
VI.
[melancolia]
Convive com a angústia de um momento.
De outros. E outros. Outros.
Estuda. Trabalha. Respira.
Agasalha-se e vai ver o mar.
Deambula pela areia e vai parando.
Em cada ponto. A cada passo. A cada metro.
Como se o mar modificasse, inconstante, o seu bailar.
Depois corre. Foge-lhe. Foge do que ambiciona.
Agacha-se e olha-o de novo.
De mais longe. Longe demais!
Está só.
É só.
Vive tudo o que está onde não está.
Família. Amigos. Cão. Vida.
Volta a casa.
Regressa ao mar.
Volta a casa.
Regressa ao mar.
Mais e mais.
Deseja sempre o mar.
Mesma hora. Mesmo pesar.
Por vezes, de um local mais elevado, abraça-o.
Enche-o de lágrimas. Agita-o.
A sua presença.
O mar nunca é solitário.
Ela é.
Está só.
É só.
Um dia o mar terá de compensá-la.
VII.
[pensamento]
Escondi-me atrás da morte para que ninguém ousasse procurar-me.
Ainda assim, fui de lá arrancado pela vida.
VIII.
[é uma hora silenciosa esta…]
É uma hora silenciosa esta…
Deito-me sem vontade. Fecho os olhos, sem sono.
Vejo-te… sozinha nessas horas… nesse quarto escuro,
Entregue ao incontrolável devaneio a que chamam sonho,
Ou perdida num qualquer outro canto… sem mim…
É uma hora silenciosa esta…
Esta hora chega como chegaram tantas outras.
Como tantas outras hão-de partir. E imagino os teus passos.
Não me permito um delírio. Um sopro de animalidade que rodeia
O meio onde, sozinha, te arrastas … sem mim…
É uma hora silenciosa esta…
Os lábios tecem os mais longos suspiros. Os olhos, as mais difíceis questões.
No peito a dor. Nas mãos o cansaço de linhas que se repetem.
Agarro todas essas imagens. É a minha forma de não adormecer sozinho.
A minha forma de te amar na distância que possuis… sem mim…
Há algo em mim que se esqueceu de ser…
IX.
[pensamento]
Só bebo por prazer ou estupidez. Por vezes confundo-os.
Ariel d’Angoulême
Parte dos textos que constituem este “post” fizeram parte de um outro canto que criei e destruí, porque é difícil a uma só alma alimentar dois corpos.