Wednesday, February 27, 2008

Ao abrigo da loucura dissimulada

- A verdade não existe.
Resta-nos procurar a mais bela de entre todas as mentiras.
Posso a prender a ser demente?
Ensinas-me?
Ensinas-me a ser como tu?
A mais bela de entre todas as mentiras.
- Amigo, o passado lá ficou com o que foste.
O tempo é irrecuperável.
Deixa esses devaneios.
- Vamos sentar-nos junto ao mar um dia todo?
- Um dia inteiro, queres tu dizer!
- Não. Um dia todo.
O dia quebra-se em pequenos fragmentos que esquecemos mais tarde.
Um dia todo junto ao mar.
- Não te entendo. Mas tudo bem.
Seja um dia todo.
Para quê?
- Ostentar o verde das árvores. Escutar o soprar do vento na folhagem.
- Amigo, que dizes tu???
- Cala-te. Estou a tentar ser louco.
- Parecer louco, queres tu dizer!
- Estás louca?
- Tudo bem. Vamos sentar-nos um dia todo junto ao mar.
Mas ostentaremos apenas água. Escutaremos apenas o bater de ondas contra os rochedos.
- Poderia ser a mais bela de entre todas as mentiras, mas parece-me verdade!
- É o que tu queres que seja?
- É.


Ariel d’Angoulême

Wednesday, February 20, 2008

[sem título]
Não sinto a chuva!
O que é que se passa comigo???
Não consigo sentir a chuva!

Matem-me com poesia e melodias.
Não aceito desculpas.
Se modificar, morro.
Devo ser morto, não morrer.

Tragam-me a chuva… num copo.
Uma vela… noutro.
Tragam-me o criador e o carrasco, nem que seja ao pontapé.

Quero um pedaço de papel para escrever o mundo…






… numa só palavra…
(e um ponto final???)









Merda.



Ariel d'Angoulême

Tuesday, February 12, 2008

A noite abre meus olhos
I.
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

II.
Paga-me um café e conto-te a minha vida

O inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
isso me lembro

Outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem

Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudade desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

«Pago-te um café se me contares
o teu amor»

III.
A incompreendida figura do amor
a céu coberto sem que se exprima
rodeamo-nos de vinganças, medidas, ardis
e enchemos os livros da ardente ausência
de nós próprios

Ao entardecer corremos
ao pontão sobre o mar
e a vida só se parece
com alguma coisa que sabemos

IV.
A verdade que pertence aos gestos
ao menor dos nossos gestos
antes de chegarem palavras que nos socorram
às vezes é a verdade de um amor

Escassos propósitos as palavras
para o abalo de terra
em que se tornou de repente
a nossa vida

Um sofrimento não nos larga
a manhã parece-se estranhamente
com outro lugar
saberemos então que significam
os intervalos do silêncio
onde o silêncio é maior

V.
Estendi a mão por qualquer coisa inocente
uma pedra, um fio de erva, um milagre
preciso que me digas agora
uma coisa inocente

Não uses palavras
qualquer palavra que me digas há-de doer
pelo menos mil anos
não te prepares, não desejes os detalhes
preciso que docemente o vento
e longínquo e o próximo
espalhe o amor que não teme

Não uses palavras
se me segredas
aquilo que no fundo das nossas mentiras
se tornou uma verdade sublime

VI.
Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

Folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

VII.
há uma altura, creio
um dia em que se acorda
e se percebe tudo:
a traição do acaso
que dispersa a folhagem do jardim,
a solidão inacessível dos desertos,
a ferocidade da natureza
em certas estações,
essa espécie de errância
que pertence ao silêncio
mais que a qualquer palavra

VIII.
O amor é uma noite a que se chega só


José Tolentino Mendonça

Thursday, February 7, 2008

Sr. Ariel, é a sua vez.
Acho que apenas me quero sentir infeliz.
É. Acho que é isso.
Nada disto é o que pensei que tinha.
Estou tão cansado!

Da mesma forma que alguém anseia pela felicidade.
Eu anseio pelo oposto.
Criatividade talvez. Não sei.

Agarrar com vontade as memórias de tudo o que perdi.
Encarar o presente como conjunto de vivências que perderei de livre vontade.
Deixar de programar as perdas futuras que me reservo.
Deixar-me.

O ego é transparente.
Ninguém o vê.
Perdeu-se para tudo o que deixei por aprender.
E o verbo “deixar” é a premissa desta minha decadência.

Há algo mais que deva dizer?!?!
Não.

Não vos quero na amargura.
Esqueçam-me apenas…
Quero saber que me esqueceram.
Quero tanto caminhar sozinho! Ser só eu.
Quero saber, no fundo, que existe uma competição para tudo… e que o meu esforço se chama inércia… e que me mantém no fundo de cada coisa… e que…

Não consigo aguentar a vida se terei de compreender mesmo quem não desejo.
Se terei de sorrir a tudo. Não quero.
Deixem-me.
A solidão tem o seu conforto.

Acho que, no fundo, o que desejo realmente é ser infeliz.

Quero amar-vos a todos… mas só hoje.
Quero perder-vos a todos.
Cometer um erro crasso e perder-vos. A todos.
Todos.
Não conheço linha que divida o amor do ódio.
Ficam lindos de mãos dadas.
Amar alguém sempre foi amar-me menos.

Quero ser sozinho.

Não sinto dor na carne.
Não tenho alma de gente.
Felicidade transbordante.
Engano-me.
Fui aceite sempre que pedi para ser recusado.

Fui o vosso ideal um dia.
No outro, o rato que poluía a casa onde os vossos filhos brincavam.
Fui o vosso amor um dia.
No outro, o ninho de cobras que antes não encontravam.
Tive os meus sucessos.
Mais na maldade, diga-se.

Todos os dias sou um pouquinho de cada um de vós.
E cada um de vós é parte do que ignoro.
Simplesmente não sou por me manter sendo.

Desde a infância que peço a cada dia para morrer no dia seguinte.
O ciclo tornou-se vicioso.
E é essa praga que me mantém vivo.

Acho que quero ser infeliz.
E o resto…

Bem… o resto que se foda.

Ariel d’Angoulême