Ao abrigo da loucura dissimulada
- A verdade não existe.
Resta-nos procurar a mais bela de entre todas as mentiras.
Posso a prender a ser demente?
Ensinas-me?
Ensinas-me a ser como tu?
A mais bela de entre todas as mentiras.
- Amigo, o passado lá ficou com o que foste.
O tempo é irrecuperável.
Deixa esses devaneios.
- Vamos sentar-nos junto ao mar um dia todo?
- Um dia inteiro, queres tu dizer!
- Não. Um dia todo.
O dia quebra-se em pequenos fragmentos que esquecemos mais tarde.
Um dia todo junto ao mar.
- Não te entendo. Mas tudo bem.
Seja um dia todo.
Para quê?
- Ostentar o verde das árvores. Escutar o soprar do vento na folhagem.
- Amigo, que dizes tu???
- Cala-te. Estou a tentar ser louco.
- Parecer louco, queres tu dizer!
- Estás louca?
- Tudo bem. Vamos sentar-nos um dia todo junto ao mar.
Mas ostentaremos apenas água. Escutaremos apenas o bater de ondas contra os rochedos.
- Poderia ser a mais bela de entre todas as mentiras, mas parece-me verdade!
- É o que tu queres que seja?
- É.
Ariel d’Angoulême

