Thursday, January 31, 2008

Epifania
A dificuldade de caminhar ferido
Sensação de conforto anulada
É inconveniente
E quando tombar
Neste mundo de sol
Não serei mais sombra
Dos que se habituaram à minha protecção
Não serei mais aquele
Que sempre lhes cobriu o sol

Não queiras saber como me sinto
Estranho
Tudo foi um dia
Foi

Não há brisa que me aqueça o corpo
Não há cura que me encha o copo

Não sei do amanhã
Tão pouco sei do já

Perdi o meu passado de papel
E não mais me lembra quem fui
Ou porque fui

Tu foste minha
Vida
Tu foste minha

Nada sei das flores
Que trazem cor à pedra

Ariel d'Angoulême

Wednesday, January 23, 2008

Aeternitas
O terceiro ataque foi o melhor.
Um curto-circuito físico seguido de um outro, mental.
Comecei a perder o controle das minhas acções.
Sentia o corpo torcer-se, desobediente, sobre si mesmo.
Não conseguia combater essa torção.
E, subitamente, a mente começou a “fechar-se”, como que espremida entre duas paredes.
A visão turvou e então…

Eis onde pretendo chegar…
Decerto que alguns de vós já viveram essa sensação de liberdade, de repouso…
Decerto que alguns de vós já viveram essa oportunidade. Única.
“Ser ninguém em lugar nenhum”.
E nada do que diga ou escreva poderá dia algum aproximar-se do que senti.
Menos ainda do que não senti.

(…)

O terceiro ataque foi o pior.
Quando voltei a acordar daquele estado gracioso, tive de volta toda a repugnância habitual da humanidade.
Estava estendido no chão.
Voltei, de facto, a sentir-me.
Sobre mim, cerca de uma dúzia de caras desconhecidas que me olhavam curiosas.
Sentia a cabeça molhada…
Alguém me prestava assistência médica.
Uma seringa que me atravessa com algo hipoteticamente vital.
- Há quanto tempo estou assim?
- Vá. Não se mexa. Está assim há alguns minutos apenas.
Estupefacção. Minutos?!?!?!

Alguns de vós saberão o que é a eternidade. Sei que sim.
Minutos?!?!?!
O terceiro ataque foi o melhor de sempre…

Ariel d’Angoulême

Wednesday, January 16, 2008

Dois
A água ferve.
Mergulho a pouco e pouco.
Uma vela reside em cada um dos quatro cantos.
O fumo eleva-se como se o meu corpo expulsasse a alma que lhe dá sentido.
O corpo arde no líquido perfumado e já não é corpo.
Movo as pétalas à superfície…
Ouço a espuma a desfazer-se por entre os dedos cansados.
Deixo que as mãos surjam à superfície para as mergulhar no segundo seguinte.
Só eu contamino o ar que respiro.
Fecho os olhos.
O chocolate derrete vagarosamente e desliza dentro de mim.
O chá… Oh! O chá… Claro que teria de existir um chá!
O incenso. Que dizer do incenso!
Ópio, uma vez mais… e rosas…
Não os distingui ao inicio, tal a miscelânea de aromas.
Lavanda, cacau, chá, incenso, fardo do que não sou…
Perfumes!
Só eu contamino o ar que respiro.
É a necessidade de solidão presente.
É a necessidade de descanso.
É ela quem me proporciona esta fuga.
É ela quem me presenteia com este santuário de mim.
Subo e desço entre o chão e o tecto de mim, dentro e fora da água, longe e perto dos cheiros.
Confinei-me à luz das velas que abatem pequenos espaços de escuridão.
Apenas um pouco. Porque a escuridão também sou eu.
Preciso de ser salvo.
Mergulho mais.
E há uma mão que me toca.
E há um olhar que me alcança.
E há um suspiro breve.
E há um corpo à superfície…
E um outro que o aguarda…
Nós.

Ariel d’Angoulême

Thursday, January 10, 2008

Milford Sound
Hoje voltei lá…
Sentei-me sobre um rochedo a ouvir o mar e voltei lá…
O eco das montanhas, a humidade…
O verde intenso mergulhado na neblina que sobe da fúria das águas.
A saudade!
Talvez seja a saudade quem me pede para voltar lá de tempos a tempos.
E revolvo os cantos da memória em busca desse local sonhado.
Não guardo grandes paisagens, nem sequer grandes vivências…
Guardo detalhes ou detalhes do detalhe.
Às vezes alcanço um fragmento de chão apenas, cultivado num pedaço fixo de lembrança.
E esse chão vale a minha vida.
Contudo… volto ao eco das montanhas.
Longe desta noite e desta praia…
Bem para lá… do outro lado… Para lá do que vejo.
E então…
Uma montanha imensa, e outra e mais outra… e o mar…
Tudo sem mim…
Montanhas sem mim… mar sem mim…
Tudo o quanto perdi de vista…
E agora, deste lado, relembro.
E relembrarei sempre…
O primeiro de todos os lugares onde morri.

Ariel d’Angoulême

Sunday, January 6, 2008

Black
Black is the color of your contradiction
Black is the color of your forgotten dreams
Black is the color of your eyes' reflection
Black is the color of your enormous means

When you're leaving
You leave a black world behind
When you're crying
You cry black tears of your mind

Black is the color of all your lost emotions
Black is the color of the book that you have closed
Black is the color of your dangerous illusions
Black is the color of the end you miss the most

Monika Gyebnár

Tuesday, January 1, 2008

Distância...
O tempo pinga a desventura deste momento…
De tantos outros…
Chuva densa de memórias dentro da memória…
Para fora de mim…

O traço sulca a dor da distância.
Por vezes chamam-lhe estrada… outras carris… ponte…
Que importa?
Todos se perdem no horizonte…

Quero ver-te.
Terror da ansiedade que me invoca a ti e a nós.

A pena rasga, emudecida, a garganta de papel…
Pronuncia o teu nome…
Silenciosamente…
Suspiro.

A carência de ti que me faz sentir só eu!
Tão eu! Tão meu… de mim! Tão…
Desabituado.

Só.
E a palavra dói mais na alma que no papel esquartejado.
Só.
Duas letras que se aliam para se tornar, cada um a seu tempo, lâmina e verme consumindo a carne do que sou… Só!
Só.
De quando em vez.
Outra vez.

Recruto-me ao esquecimento.
Surdo entendimento.
Tédio de mim mesmo.

Ariel d’Angoulême