Monday, July 7, 2008

Poesias pela noite dentro...
A Tempestade (2006)
…faz-me lembrar folhas outonais, amarelas, a cair das árvores e a brindar o chão de ouro.
As árvores, nuas, acenam ao Inverno que se aproxima.

(pausa)

O vento pode levar-te em pétalas outonais, sopros de um sopro…mas é preciso quereres muito. A mim nunca me levou.


Que esse vento, revolto, rume a ti com mais palavras minhas...
Saberás que a tua dor não é solitária…
E esta chuva…
Esta iluminação decadente e efémera…

Olha, relâmpagos! Anda ver a tempestade...sim? Queres um chupa?

Oh! Tempestades... caminhá-las...
Será loucura?
A loucura é o meu estado mais apetecível...

Eu acho que a Loucura é o estádio do Mestre. Não nos pertence, nós é que lhe pertencemos...não é? Podia ser. Gosto do cheiro a terra molhada.

Quero deitar-me no chão...
Nos passeios, na terra...

Cheirar a terra, pegar nela com as mãos e comê-la.
E as árvores, já viste…? Vêem tudo. Eu gostava de ser árvore.
Ruídos que sabem a morango...e nós…assim…
(pausa)
…a vida é um cabaret.


Escolher um chão coberto de folhas... deitar-me sobre elas...
Deixar que chuvas e ventos alterem isso...
E passem as folhas a cobrir-me...

E depois, na calada da noite, ouves barulhos estranhos…ssssshhhhhk...shhhk shhhk...

…o que será isto?! Pergunto…

…são os filhos do Inferno a comerem-te a carne, grgrgrrgrgr…
(gargalhadas)
…E ficares sentado debaixo das árvores, com as folhas a descoserem-se dos galhos? Como um espectáculo de fadas douradas a dançarem diálogos e depois caírem em panos.
À tua chegada tudo se cala… como se tivesses entrado numa sala e todos parassem subitamente para te avaliar…
Depois ouves murmúrios... e as árvores reconhecem-te, anunciam-te e cumprimentam-te agitando as folhas… o vento dança contigo… percorre o teu corpo e sussurra-te ao ouvido...
Basta fechares os olhos e acreditares naquilo que te digo, que é verdade.
Se acreditares, eu digo-te que estás rodeado de salgueiros e pinheiros, e tu começas a sentir-lhes o cheiro...

Sim… E sinto a chuva…
Sinto a roupa pesar-me, molhada, contra o corpo...
Cada gota de chuva vai roubando a secura de cada singular cabelo...
E pequenos canais se formarão para me inundar a face muito em breve...

…As narinas dilatadas, os olhos fechados, a boca entreaberta, a cabeça erguida para o céu, para que nada passe ao lado...

E ainda que perdidos, choramos... de felicidade ou dor...
A dor do céu sucumbirá e aliar-se-á à nossa...

Ou a mistura explosiva de ambos...
E seremos Um Todo, nós e...

E teremos, tal qual um licor, uma doce transparência... embriagando a alma e o corpo…

Sim...o arrepio na espinha, o medo de querer mais, o medo do mundo …eu tenho medo. Fecharmo-nos numa noz ou abrirmo-nos aos céus…

Como uma flor que brota... uma nascente que se inunda de si mesma e se revolta...
Como um pesar saboroso... irreal... sentido tal qual tudo o resto... desigual...
Evitando o silêncio, controlamo-nos, mas nada mais há em nossa volta...
Só mais uma gota, um suspiro que se solta...

Um cheiro, um toque, sentir e desmentir…

A essência eterna jamais saboreada...

Um grito silencioso que se não esgota...

E mais um sorriso tímido que brota...

O perfume único… ser-se criado sem propósito…

E tornámo-nos terrenos e amenos…

E há aquele que nos trespassará a alma e o ócio…

É o tempo que passa sem dar conta que o faz...
E não avisa... Nunca...
Mas teremos sempre estes momentos. Vaguear... sem estar sozinho...

Tens a certeza que não queres um chupa?

Ainda tremo de frio…
Ou de sensibilizado…
Importa?

Chega-te para aqui, não vês que tenho um cobertor?
Pronto, assim não tens frio.
Não percas essa sensibilidade…essa coisa que tu tens e que é só tua.

Que conforto o da palavra!

Não sejas foleiro…! As palavras…são sempre mais as que ardem na lareira às que ficam no papel!
Se pudesse fazer um cobertor de palavras…um cobertor que fosse só nosso, claro.
Palavras suaves, a dançar o curso de um rio calado...aposto que até o poderíamos comer e que saberia a cerejas.

Tal qual o oblíquo pensamento que nos caracteriza...
Não seguindo um caminho directo, mas um de obstáculos...
Palavras impossíveis de guardar eternamente…
Estarei a sonhar a magia de visões que estas palavras traçam?

É a realidade que sonhas…

Visionaste o mesmo?

Então sempre fomos juntos! Eu sempre o soube.

Sim... sabes... não sei quem deu a mão a quem, mas sentimo-la...

Antígona and Ariel d’Angoulême

16 rompimentos:

Twlwyth said...

Pensamentos que se soltam como as folhas se desprendem das árvores.

Não tenho a certeza se quero um chupa. :)

Beijo

mariazinha said...

eu cá quero (o chupa). e essa cumplicidade q é igualmente doce.

:)

beijos**

andorinha said...

Dos tais que "apenas" leio, releio e saboreio:)

E importa quem dá a mão a quem?
Penso que não:)
"Tens a minha mão aberta à espera de se fechar nessa tua mão deserta"
Já dizia António Variações.

Beijo*

Frankie said...

Que belo...

E é como uma peça musical tocada "a quatro mãos"!
E que mãos!
Basta dizer que elas pertencem a duas das pessoas cujos "escritos" mais admiro.

Beijos para os dois*
E...uma vénia ;)

andorinha said...

Ando mesmo despassarada de todo:)

Se não lesse agora o comentário da Frankie, nem tinha reparado que também era escrito pela Antígona.

"Sim...sabes...não sei quem deu a mão a quem, mas sentimo-la..."

Agora já leio isto com outros olhos

Beijinhos para o menino e para a menina:)

Frankie said...

AhAh!!!
Diz lá, Mummy: o que seria de ti sem mim?! :P

Klatuu o embuçado said...

Grande dupla! ;)

P. S. É a do mestre, mas também deve ser a do discípulo.

Ariel d'Angouleme said...

twlwyth,
se entretanto te decidires, envia mail a citar o sabor favorito... ;)

Beijo*

Ariel d'Angouleme said...

marizinha,
o mesmo para ti... é favor referir o sabor favorito para ver se oriento a mercadoria... hehehe

Beijo*

Ariel d'Angouleme said...

andorinha,
todos os dias temos mãos a estender-se na nossa direcção...
são, porém, aquelas que se nos estendem nos dias negros as que mais valorizo...
A Antígona foi essa pessoa na, provavelmente, fase mais negra da minha vida...
E eu próprio lhe estendi a minha mão...
Por isso a minha insistência na citação que as envolve...

Beijo*

Ariel d'Angouleme said...

frankie,
muito obrigado...
há muito que estava planeado colocar aqui algo feito por mim e pela Antígona...
Essa hora chegou...
Uma tempestade em pleno verão.

Beijo*

Ariel d'Angouleme said...

klatuu,
;)

P.S: Confundo-as tantas vezes!

mariazinha said...

morango, daquele bem ácido!
;p

beijos**

andorinha said...

"...são, porém, aquelas que se nos estendem nos dias negros as que mais valorizo..."

Sm dúvida, amigo, entendo e estou absolutamente de acordo.
E em relação à Antígona...nada a dizer:)

Beijo*

Frankie said...

As tempestades em pleno verão são as mais inesperadas mas, normalmente, também as mais avassaladoras... :)

Twlwyth said...

Envio mail para onde? lol