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Adeus futuro!
Quando me farto do significado das coisas…
Tento um vínculo recto entre as veias e o papel…
Há poetas que escrevem o sangue até expirar…
Há os poetas… morte…
Ligo a veia seca a uma carga de caneta…
E rompo o amargo fel trespassando-lhe o papel…
A pena… em repouso… “Pega-me, usa-me”
Perco-me… que abusivo estado de ansiedade!
O lacre derrete… não o uso…
O sinete enferruja… não lhe toco…
Adeus futuro!
Ariel d'Angoulême
Papoilas em Julho
Pequenas papoilas, pequenas chamas do inferno,
Vocês não fazem mal?
E tremeluzem. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos entre as chamas. Nada queima.
E fico exausta ao olhar-vos
A tremeluzir assim, pregueadas e de um vermelho vivo, como a pele de uma boca.
Uma boca que acabou de sangrar.
Pequenas bainhas ensanguentadas!
Há fumos que não posso tocar.
Onde está o vosso ópio, essas cápsulas que dão náuseas?
Se eu pudesse esvair-me em sangue ou dormir! –
Se a minha boca pudesse casar com uma ferida assim!
Ou se os vossos venenos pudessem penetrar em mim, nesta cápsula de vidro,
Para me entorpecerem e aquietarem.
Mas sem cor. Sem cor nenhuma.
Sylvia Plath
Veritas?
Fui júri da minha sinceridade…
Julguei-a, pelo que partiu…
Não me atribuí qualquer recompensa
Porque a sinceridade me feriu.
Ariel d’Angoulême
Foi uma vez...
“You're gone. As suddenly as you came to me
Like nightfall followed dawn without a day between
You're gone and suddenly I can't see
I'm in the shadow of you
I'm in the shadow of you”
- Marillion -
O caminho outonal, onde folhas esmorecidas, ora repousavam, ora bailavam, encontrava-se, uma vez mais, sereno.
Ladeando o caminho, uma fila de alguns bancos de madeira, intervalados, todos eles acostados a um mural de granito que servia de separação entre o caminho e os “Jardins da Memória”.
Sobre o muro, desses jardins, curvavam-se as árvores nuas, tingindo o ambiente de um surrealismo lúgubre.
Tantos poemas criados! Tanta fome de carne acabada!
A hora crepuscular chegou.
E com a hora crepuscular, chegaram eles…
Um vindo da esquerda, outro da direita…
Firmaram, ainda ao longe, o que representava o primeiro olhar.
Caminharam.
A distância anulava-se pelo movimento, até ambos se tocarem.
Um braço, outro braço… Refugiaram-se no corpo um do outro.
A força impetuosa do seu desejo esmagava a carne entre os dedos.
Roçaram as faces… uma e outra vez.
Invadiram-se um ao outro com tudo o que eram.
Deixaram-se invadir por tudo o que representavam.
Fecharam os olhos…
Tomavam lugar suspiros incontidos mas hesitantes; batidas fortes e descompassadas; soluços incontrolados…
Do céu, desceu uma chuva fina que seguiu ao encontro daquele momento.
Cada vez se refugiavam mais um no outro…
Tudo era perfeito nesse instante.
A mão dele, fixa nas costas dela, muito vagarosamente, permitiu-se subir, contornou o ombro redondo e alcançou a face acetinada.
Ansiava por aquele toque. Ela ansiava por aquele toque.
A mão dela tomou percurso idêntico e foi ao encontro da face dele.
Acarinharam-se por… eternos minutos.
As faces deslizaram uma pela outra, afastando-se. Uniram-se as frontes.
As mãos continuavam perdidas num carinho invulgar.
Abriram os olhos, embebidos por um misto de lágrimas e chuva.
Delinearam um sorriso acanhado que se perdeu para a comoção.
Ainda trémulos, suspiraram uma palavra em uníssono…
A hora crepuscular terminou.
Começaram a arrastar-se dali, em direcção ao local de onde surgiram.
As frontes afastaram-se, os troncos, os braços… as mãos… até ao miserável toque do último dedo…
Só o olhar se manteve fixo até ao momento em que ambos voltaram as costas e rumaram em sentidos opostos, separando-se…
E desde então… vivem juntos para sempre.
"Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te."
- W. Shakespeare -
Ariel d’Angoulême