Friday, August 31, 2007

O depois...
"Na vida não há aulas para principiantes,
Exigem-nos logo o mais difícil."
- R.M.Rilke -


…e o perfume?!?!
Incrivelmente penetrante…
O olhar… Quão desvelado aquele olhar!
Quantas vezes não me permiti tocá-la!

As suas mãos mendigando o toque das minhas…
Os seus olhos à procura da linha dos meus…
Sentia o odor da minha ansiedade…
“Preciso de ti”. Escutara ou meditara?!?!

E eu… apenas…
Apenas aniquilando a sua paz…

Remorso? Porquê?
Validei a desconfiança…
Esgravatei o fundo inepto da esperança!
Tão razoavelmente que temi o monstro em que me torno…

“Sim, quero a verdade…
E depois da verdade… desejo que me odeies…
Depois da verdade… se perca a memória…
Me seja suprimido o pensar… o repensar…
Depois da verdade…”
Não chores. Nem aqui, nem agora…
Nem…

Ariel d'Angoulême

Thursday, August 23, 2007

The Book - The Box
I.

“Existem pessoas que, pura e simplesmente, nunca deveriam guardar o coração no peito.”

II.

Construí, em madeira, uma caixa.
Não uma caixa qualquer. Uma caixa com o formato de um livro.
Trajei-a de preto e gravei na lombada: “Ad Aeternum”.
Nela depositei o meu coração… por entre o forro aveludado.
Decidi colocar a caixa ao lado daquelas que, a meu ver, foram as obras mais importantes que li até à data.
A esse local só eu acederia.
Coloquei-a perto dos génios. Longe do resto da humanidade.
Durante anos.
Até que um dia…

III.

Verão de 2006:

Corria o verão nas ruas, entre brisas dispersas e sombras imóveis…
Na minha sala corria o tempestuoso verão de Antonio Vivaldi.
Sempre adorei a finalização desta estação na admirável obra do compositor, tanto quanto adoro o final desta estação nas ruas onde o tempo corre a uma velocidade diferente da minha…

O toque na campainha denunciava, muito subtil, a presença de uma querida amiga.
Libertei os lábios do cálice onde repousava um “Porto” e permiti que o roupão me arrastasse até à porta.
Abri e gesticulei qualquer coisa que fez com que entrasse.
A sua presença transbordava vida sobre a casa que já não me sentia mover dentro de si.
Sentou-se um pouco comigo e esgotou 15 minutos do seu tempo, preenchendo 15 minutos do meu... num qualquer assunto desinteressante com que me deleitou…
Findo esse tempo, decidiu revelar-me o motivo da sua visita.
Precisava de um livro e sabia-me com um exemplar.

Sim. Tinha um exemplar.
Recordo-me, com precisão, que o deixara na biblioteca na primeira prateleira do lado direito e que seria o 7º livro a contar da esquerda.
Permiti-lhe que fosse até lá buscá-lo na condição de se juntar a mim para um cálice antes de sair.
Fez um gesto de concordância.

Sempre procurei colocar-lhe condições que permitissem mantê-la comigo 2 minutos a mais que fossem…
Mas nunca lhe neguei nada. Amava-a.

IV. I.

Ela retira-se.
Deixo o cálice gozando a tranquilidade estática que uma mesa de vidro lhe pode proporcionar.
Volto-me para a aparelhagem. Carl Orff faz as honras. “O Fortuna” engrandece o ar que respiro. Fecho os olhos e ergo as mãos, como um maestro, fingindo ser eu a dirigir orquestra tão soberba. Paro, como que retomado pelo consciente, e pego de novo no meu cálice.
O cálice vazio puxa-me até ao bar, onde se faz acompanhar de um outro cálice entre os meus dedos. A garrafa entrega-se à outra mão e enche ambos.
Saio detrás do bar e rumo ao centro da sala. Estendo um dos cálices na direcção da biblioteca, como que chamando os lábios dela ao cristal fino.
E nessa altura, um vazio intenso me atravessa o peito.

IV. II.

Entrou na biblioteca e os pés carregaram-na até ao local desejado.
O seu olhar assentou numa lombada vermelha.
Pegou no livro:
“The Ilustrated History Of Art” de David Piper.
Na capa: “Type Of Beauty”. Uma belíssima pintura de James Tissot.

Voltou-se para sair… mas…
Algo lhe prendeu a atenção. Algo que residia numa das mais altas prateleiras.
Esticou o braço e alcançou o livro que agora palpitava nas suas mãos.
“Ad Aeternum”.
Nunca ouvira falar de tal livro e a capa não denunciava autor.
E porque palpitava?!?!
Sentia-se empolgada.
Abriu-o.

Aterrorizada, deixou cair o meu coração e saiu a correr.

V.

Aterrorizada, deixou cair o meu coração e saiu a correr.
E nessa altura, um vazio intenso me atravessa o peito.

A porta da entrada bateu.
O vinho pintou o chão.

Ariel d’Angoulême

Sunday, August 19, 2007

Do papel...
É um fio de tinta que liga esta mão ao papel.
Um leve pensamento. Eco translúcido.
Gotas que atraem palavras e as deglutem com fome de realidade.
É quimera. Pertence-me.
É um querer que não é meu e que me impus. Esquecer-te.
É um não querer que me recuso. Querer-te.
Lê. És tu.
Ouve o papel delineando o teu rosto.
Gáudio meu.
Transformo o gesto em mensagem.
E quando me lês, sou teu.

Ariel d’Angoulême

Monday, August 13, 2007

Arbítrio
I

Não considero cego aquele que não vê.
Não considero vivo aquele que não dorme.
Escuto em cada perturbante anoitecer...
A cegueira como uma luz que me consome...

II

Estendo-me sobre o abismal destino.
Abrigo o tempo entre os dedos.
Dissolvo norte e sul num eco.
Entoo a solidão – Último hino.

A chama nasce cá dentro.
E a chuva arde no olhar.
Porquê esperar?
É a meu favor que atento!

Sinto-me de fora.
Vejo-me de cima.
Que o salto me redima…
Será agora.

III

O vento extingue-se na pele... gela, fervendo…
Tonaliza de morte… pela pressão exercida...
A pressão… cada vez mais é menos vida...
Pois que assim seja… Tanto mais a pretendo…

É vida o que pulsa em mim... entardecida...
De súbito, já não é com dor que lido…
Declaro guerra contra o suspiro contido…
Sorrindo... com a face empalidecida...

Ser por ser? Quis optar por ser ninguém!
Desfalecer é sentença de um só dia…
E por um só dia, nada me assiste ou detém.

“Abismo… que me acenas… Ó doce alegoria…
Colhe-me… à força bruta de amor ou desdém…
Diluo em ti parte de nada que jamais seria…”

IV

Finalmente Vivo…
Finalmente Acompanhado…

Ariel d’Angoulême

Thursday, August 9, 2007

Inevitavelmente... aprisionado...
"We have touched for the last time
You are long gone, in love with someone else
I now fear nothing but life itself
And I have learned that living is just a slow way to die
I do not believe in life or in love anymore.
The joy I feel are the joys of emptiness
I hate myself for loving you
The fear I feel night after night has developed into a disease
No-one can see the emptiness in my eyes.
To escape life itself now seems the only solution
With relief I look forward of letting go of the pain
Finally... there is peace in my soul
To lie dead without a concern , without a tear,
You own my heart
And life without you is so immensely painful
Just to think of you, talk about you, dream of you makes tears stream down
my face
I cannot imagine happiness without your beautiful smile, your angelic face,
your wonderful body and your good heart:
You are everything, I am nothing
I want to die
But really... I am already dead"

- Mortal Love -


... ... ... ... ... ... ...

Há quem afirme que a escrita é forte.
Há quem julgue que o pulso é firme.
Há quem considere extraordinária a graciosidade.
Há quem não saiba…
Há quem não saiba, de todo, que força, firmeza ou graciosidade alguma foram suficientes para te manter do meu lado…
Há quem não saiba o quanto me magoa lembrá-lo por cada vez que me lembram parte do que sou… Parte do que se perdeu no final.
O “Final”… nunca nada tem força, firmeza ou graciosidade suficiente para o evitar.

São os erros que, à partida, julgamos menores que nos transformam a vida.
Meditamos insuficientemente nos danos que podem, eventualmente, provocar.
Contudo, agrada-nos mais o “eventualmente” que o “dano” em si.
Obviamente.

Fui livre de cair. Caí.
Fui livre de perder tal liberdade. Bastou, para isso, imprimir num caderno o amor que te tinha.
Inspiras-me. Basta, para isso que, inadvertidamente, suspire por ti.

Queria ter-te aqui. Um pouco.
Um minuto que fosse. Rever-te.
O bastante para reviver toda uma vida. Agora inalcançável.
Aquela vida que de “minha” passou a “nossa” para passar a “tua” e, irreversivelmente, desfazer-se em “nada”.

O tempo que me resta sem ti é o tempo de uma vida…
Como desejei ter-te só no fim do meu tempo a perder-te logo no início!
Mas… nunca aprendemos.
Nós nunca aprenderemos.
Dói-me saber-te nos braços de alguém…
Dói-me mais sabendo ter sido eu quem te entregou a eles.

Adorava poder dizer-te “Sim, sou feliz” mas… não me permito mentir-te novamente.
Ao invés, vou tentando mentir-me a mim mesmo.
Talvez um pouco como sempre fiz.
Vivo um pouco o sofrimento dos outros para fingir que não tenho meu.
Talvez um pouco como sempre vivi.
E quando quiser que me não conheçam, bastará contar toda a verdade acerca de mim.
Como sempre…

Só num novo cárcere encontrarei a minha liberdade…

Ariel d’Angoulême

Saturday, August 4, 2007

Revolvendo o baú arcaico – IV
“Opium”
A tinta escarlate deslizando,
Conquista, ao de leve, a tela virgem.
Quanta dor! Quanta vertigem!
Quanta vida e morte! Quando?

A intemporal orquestra pulsando!
Envolve-me a compassada viagem.
Doce tornado! Doce miragem!
Vou partindo e vou chegando…

Essas mãos que te pintaram,
Essa mágoa que esculpi
Tem mais de mim, tem mais de ti…
Mais que promessas realizaram.

Agonizo na lembrança
De cada fuga, cada espera…
E o mais ténue anseio supera
A mais vigorosa temperança.

Retorna a viva melancolia.
Os tempos ditosos já lá vão…
Pergunto-me se voltarão,
Ou se os tive eu algum dia?

Ariel d’Angoulême