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Pain behind blue eyes...
“Odeio estes dias em que os sentimentos traem as minhas palavras.”
- Dalinae Ottiemo -
E ela esculpia num bloco de notas…
Penso em ti.
Ou seria mais justo afirmar que irrompes furiosamente pelo pensamento sem que me dê conta?
Impossibilitas-me de controlar essas visões, essas invasões…
Recordo virtudes… defeitos…
Tanto me deliciam as virtudes que careço dos defeitos para depreender o quanto lido com outro ser humano!
Contudo, e nestes dias em que até a minha sombra me passa a perna… há algo pelo qual reclamo com mais afinco:
Queria aproveitar o tempo em que não estou contigo para não estar contigo!
Repito-o para mim mesma:
Queria aproveitar o tempo em que não estou contigo para não estar contigo!
Gostava de não sentir tanta urgência em revirar aquela caixa de fotografias…
E enquanto as ostento, gostava de não sentir tanto a necessidade de olhar mais para ti que para mim. Gostava de não ceder ao devaneio e recordar o que antecipou esse momento de papel. O que lhe sucedeu…
Contemplo em cada fotografia restos do tecido com que nada mais criarei. São momentos estáticos que jamais envelhecerão… tanto menos quanto mais os tente reviver.
Mas existem imagens que envelhecem comigo. Devo chamar-lhes desejos?
Quanto não teria esquecido, não fosse por perder parte de mim!
Perder parte do que sou ou fui…
Sim. Devo chamar-lhes desejos. Desejos que teimo em controlar a cada dia.
Desejos que converto em tormento.
Mas o dia espera…
Um dia terei de permitir que o desejo saia triunfante, ainda que para me perder.
Um dia terei de me permitir palavras que nunca usei.
Outras há que já as disse e tenho medo de as repetir.
O esforço que me incuti para esquecer o esforço de te esquecer!
Quero-te novamente.
Não sei se apenas por amanhã, se para sempre!
Quero-te. Não sei o quanto. Como haveria de sabê-lo se não te tenho ainda?
Mas já te tive. Já te perdi… Talvez nada soubesse nessa altura…
Já me tiveste… Oh, saberás tu que nunca me perdeste? Que saberás tu?
A minha dor tem o teu nome.
Por vezes chamo-lhe remorso, outras vezes covardia, outras dou-lhe o meu nome…
Volto ao passado…
Interrogo as minhas deliberações… o meu egoísmo…
Não chego a perceber se a vítima fui eu!
Talvez Baudelaire tivesse razão ao afirmar que retiraríamos muito mais prazer se ao mesmo tempo pudéssemos ser carrascos e vítimas.
Mas… fui carrasco de mim mesma… e não sei o que pensar…
Sei que mantenho erguida a mão com que me insisto golpear.
Sustento a incerteza que me amarra ao mesmo lugar:
Deixarei escapar o sonho, como se nunca pudesses pertencer-me…
E vou deixar que fujas… sem dizer que te amo… ou que te amei algum dia…
Ariel d’Angoulême
Para a minha amiga Dalinae Ottiemo.
"A recordação da felicidade já não é felicidade; no entanto, a recordação da dor ainda é dor."
- Lord Byron -
Retrato...

“A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho costuma durar um pouco mais.”
“Quantas coisas não deitaríamos fora se não fosse pelo medo de que outros as pudessem apanhar?”
“A experiência não possui qualquer valor ético. É o nome que o homem dá aos seus erros.”
“Cada qual dá aquilo de que mais necessita.”
“Os únicos artistas que tenho conhecido, se são pessoalmente deliciosos, são maus artistas. Os bons artistas existem simplesmente no que fazem e, por conseguinte, no que são nenhum interesse despertam. Um grande poeta, um poeta realmente grande, é a menos poética de todas as criaturas. Mas os poetas inferiores são absolutamente encantadores. Quanto piores são as suas rimas, mais pitorescos eles parecem. Só o facto de haver publicado um livro de sonetos de segunda classe torna um homem deveras irresistível. Vive a poesia que não pode escrever. Os outros escrevem a poesia que não ousam realizar."
Oscar Wilde
(retirado da obra “O retrato de Dorian Gray”)
Pólvora na lareira...
Inventei, necessariamente, dentro de mim, uma voz que me orienta e me pede que prossiga… a arriscar a vida em função da vida… E ignorei-a.
Talvez essa seja a voz dos amigos e familiares cuja razão demiti no tempo passado… Hoje, uma vez mais.
De qualquer forma só preciso de uma companhia invisível que não me aborreça muito…
Faz algum tempo que desisti de viver…
O dia de hoje é tão comparável a qualquer um da semana passada como qualquer um da semana passada comparável a qualquer outro do mês anterior…
Quem não quer viver, permanece… permanece apenas.
Não sei em que dia resolvi estagnar. Não sei se fora opção. Parei apenas…
Não num dia especial. Se fosse especial, o de hoje também o seria… Não. Foi um dia de merda como qualquer outro.
Um dia… quando me apercebi de que não lutava por nada… um dia quando me apercebi de que era tão inconstante que desistia de todas as coisas que me estimulavam, ao invés de as terminar... Um dia em que desisti da família e amigos… desisti de mim…
Hoje penso se esse dia não terá sido, por mero acaso, o dia do meu nascimento?
Gosto de colocar a culpa exalada pelas minhas opções no “destino”, como se algum dia o tivesse acreditado…
Continuo a verter na chávena o mesmo chá de sempre. Continuo a preocupar-me com os mesmos problemas irresolutos como se a solução surgisse do nada…
E depois desoriento-me, pensando nas duas palavras: "irresoluto" e "solução".
Continuo a deixar o corpo em repouso na cama por longas horas da noite após intermináveis sonos diurnos… Como se dormir fosse o segredo da minha sobrevivência… Talvez seja.
Continuo a “continuar”, por estranho que pareça… Afinal de contas, nem a adversidade auto-infligida me atrevo a combater… E continuo a “continuar”, contra mim…
Continuo a admirar grandes mentes… continuo a perder-me nas ideias de grandes filósofos e poetas e… Continuo a admirar cada ser que me deixe pensativo.
Quem me não excita a mente, nada me diz. Sou assim.
Continuo a preocupar-me com aquele grande amor que me prendeu… contudo, não estou certo de que continue viva. Até dela desisti.
Continuo a ler e a escrever… mas não me recordo do dia em que deixei de assimilar conhecimentos… do dia em que deixei de escrever sobre uma diversidade de temas…
Hoje, o tema sou sempre eu… como ontem, no mês passado… talvez no ano anterior…
Ninguém se lembra do dia exacto em que deixou de viver…
Por vezes, gostava de ouvir mais vozes além da minha… frustrada por não se convencer a si mesma sequer.
Por vezes, gostava de pensar que adormeci apenas e que nada do que sou representa o meu final…
Gostava de terminar de outra forma, mas… … … … … … … já desisti deste texto.
Ariel d’Angoulême