Friday, June 29, 2007

Abandono
Já o indicador tinha cortejado as doze moradas por vários dias e a melancólica criatura continuava prostrada na sua cadeira, no seu quarto, no seu pequeno mundo, em si, fora de si, fixa na lividez das paredes.
Não conseguia renunciar aos pensamentos… por muito que desejasse não pensar. Deixou de lhe interessar o mundo.
Pensava saber demais. Mais do que queria.
Pensava para si mesma o quão previsível se tornou o mais inconstante dos seres.
Passou a vê-los como cadáveres vagueando como que por cortesia prestada à vida. Cadáveres cujos limites eram estabelecidos por força da maioria contrária.
Ela pensava em tudo isto. Sem forças. Sem esperança na mudança.
As paredes. Brancas. Pensava.
O ser humano amarga pela adversidade… amarga com tempo.
Amarga os outros. Contágio pleno. Ser humano. Paredes brancas. Raiva.
Ela queria riscar as paredes. Tal a raiva! Raiva!
Riscos oblíquos, paralelos, espirais desmedidas. Sujidade. O preço a pagar.
Deixou de usar a palavra sofrer para designar o seu estado mais intrincado de agonia, o seu extremo mais complexo de tristeza, a sua incapacidade, a perfeita noção da sua incapacidade. Ela. Ela mesma. Tudo ela. Mundo de si.
Deixou de usar a palavra sofrer desde o primeiro dia em que a adivinhou no corpo da mesquinhez. Esse corpo tatuado de falsa auto-suficiência… excessivo ego.
À passagem de um dedo, dói. Dói o detalhe. E certas vezes não dói e parece doer ou parece que quer parecer que dói.
O quê afinal?
Descobriu a ausência de alma no ego tatuado por línguas pútridas.
Todas elas… salivando o vazio de tudo. Palavras.
Até do sofrimento se é merecedor. A paga de uma lição. Não da mesquinhez.
Via apenas a parede. Mesmo que atravessassem o seu olhar, ela continuaria a ver a parede.
Sonhava realidades onde a carne e a mente se confundiam. A carne forte derrubava a mente fraca. E a mente, como parte de carne, deixava sempre que a fodessem e a deixassem ao abandono.
O choro. Não o tinha. Não o queria. Antes a dor. E as paredes.
Não será nunca parte do padrão. O que outros pensam.
Não será nunca sequer o que quis ser para si dia algum.
Tão nova e de olhos tão cansados! Tão repleta de medo!
Confiança? Entrega? Prazer? Pecado? Humano? Ser Humano?
Persegue-se para exorcizar os ideais, as fantasias, as regras impostas, a máscara...
Persegue-se para se ultrapassar.
Retira os olhos da parede. Suspira. Deita-se. Fixa os olhos no tecto.
Riscos oblíquos, paralelos, espirais desmedidas. Sujidade. O preço a pagar.
Adormece.

Ariel d’Angoulême

Wednesday, June 20, 2007

Será
Será que ainda me resta tempo contigo,
ou já te levam balas de um qualquer inimigo.
Será que soube dar-te tudo o que querias,
ou deixei-me morrer lento, no lento morrer dos dias.
Será que fiz tudo que podia fazer,
ou fui mais um cobarde, não quis ver sofrer.
Será que lá longe ainda o céu é azul,
ou já o negro cinzento confunde Norte com Sul.
Será que a tua pele ainda é macia,
ou é a mão que me treme, sem ardor nem magia.
Será que ainda te posso valer,
ou já a noite descobre a dor que encobre o prazer.
Será que é de febre este fogo,
este grito cruel que da lebre faz lobo.
Será que amanhã ainda existe para ti,
ou ao ver-te nos olhos te beijei e morri.
Será que lá fora os carros passam ainda,
ou as estrelas caíram e qualquer sorte é bem-vinda.
Será que a cidade ainda está como dantes
ou cantam fantasmas e bailam gigantes.
Será que o sol se põe do lado do mar,
ou a luz que me agarra é sombra de luar.
Será que as casas cantam e as pedras do chão,
ou calou-se a montanha, rendeu-se o vulcão.
Será que sabes que hoje é Domingo,
ou os dias não passam, são anjos caindo.
Será que me consegues ouvir
ou é tempo que pedes quando tentas sorrir.
Será que sabes que te trago na voz,
que o teu mundo é o meu mundo e foi feito por nós.
Será que te lembras da cor do olhar
quando juntos a noite não quer acabar.
Será que sentes esta mão que te agarra
que te prende com a força do mar contra a barra.
Será que consegues ouvir-me dizer
que te amo tanto quanto noutro dia qualquer.
Eu sei que tu estarás sempre por mim
Não há noite sem dia, nem dia sem fim.
Eu sei que me queres, e me amas também
me desejas agora como nunca ninguém.
Não partas então, não me deixes sozinho
Vou beijar o teu chão e chorar o caminho.
Será,
Será,
Será!

Pedro Abrunhosa

Monday, June 4, 2007

Novamente Nunca
Tu. Aqui. Como tantas outras.
Eu. Aqui. Como tantos outros.
Novamente. Novamente Amor.
Não sei amar eternamente. Isso é certeza.
Amar-te-ei… enquanto não te conhecer.
Desfrutemos de 2 horas e 30 minutos de dedicação.
Não me iludirá jamais a dor da suposição de ser amado.
Gentilmente a doarei… aos braços da negação.
Onde outrora doara também, e de boa vontade, qualquer possibilidade de amar alguém…


2 horas e 30 minutos… Sem palavras.
Não me atrevo a tocar o teu corpo acetinado com estas mãos.
(Tingidas pela fugaz volúpia de tantos outros corpos…)
Tão vãs se caracterizam as perdições passageiras!
Não me atrevo a olhar-te meigamente dissimulando a carência de que não padeço.
Tantas vezes me acerquei de incertezas que eu mesmo me insinuei!
Não me atrevo a compor um suspiro (hipoteticamente) redentor.
Lembro quantas repulsas se não desfiguraram em admiração plena!

2 horas e 14 minutos… Sem palavras.
Esse olhar isento de significação.
Essa mente diáfana que teima em querer deslindar a minha.
Essa mente trespassada pela falsa noção de que eu pretendo algo desse olhar.
Desejei que atentasses no meu. Isento de ti.
Não desvendaremos nada porque nada existe!
Amemo-nos.

1 hora e 46 minutos… Sem palavras.
Seria possível?
Se ao menos…
Se…
Cedo demais para pensar nos ses...
Entretanto… Fez-se tarde…
Não tentes tocar-me.
Não tentes conhecer-me.
Ama-me um pouco.
Faz de conta.

1 hora e 7 minutos… Murmúrio imperceptível.
“Amo-te tanto que não cuido sequer a hipótese de te alcançar.
Não quero destruir-te em mim.
Não quero destruir-me em ti.
Isto deve terminar o mais breve possível.”

12 minutos… ?!?!
Porquê?!?!
Mas… porquê?!?!
Mas…

7 minutos… Pensamento breve:
“A minha mais intolerável melancolia reside em não te ter.
Ter-te inunda-me de melancolia pela incapacidade de te fazer feliz.
Não te ter é o melhor.”

1 minuto…
- Amo-te.
- Amo-te.
- Adeus.
- Adeus.

Ariel d’Angoulême