In Memoriam...
Sentei-me à mesa. Levantei-me.
Torna-se impossível digerir as palavras… oscilando dentro e fora de mim.
É um momento meu. Sinto-me estranho. Sinto-me tão Eu!
Saio da mesa enjoado de letras e tento vomitá-las num papel.
Idealizei:
Tentarei publicar a eternidade no olhar.
E talvez a prometa a alguém.
Mas a minha eternidade é luto. É dor.
Solidão.
Aceitas a minha eternidade?
Vem. Partilho-a contigo.
Seremos os dois sozinhos.
É tudo o que te posso oferecer.
Não te tocarei. Não te falarei.
Irei olhar-te uma vez apenas. Se quiseres, vem.
Vem ser sozinha comigo. Na minha solidão.
Juntos por nada.
Não prolongues a estadia. Não te tornes Eu.
Não queiras ser Eu.
Não me peças que te ame. Não queiras ter-me em ti.
Não queiras ser Eu. Nunca.
A solidão partilha-se na efemeridade a que os apaixonados chamam de eternidade. Depois evade-se.
Não me apaixonarei por ti.
Talvez me apaixone pelo que pensas de mim.
E essa visão será minha apenas. Fruto do meu Eu.
Vivendo o egoísmo da minha solidão. Na minha solidão.
É por isso que sou bom a ser sozinho.
Não te queiras tornar Eu.
Vai.
Já sabes o que é a eternidade.
Vai contar ao mundo que a transpiraste.
Vai morrer com esse mundo.
Deixa-me morrer sozinho.
Voltei para a mesa.
Alimentei-me, ingerindo garfadas de verosímil contestação, sorvendo goles de desespero.
Não me permiti um pensamento sequer acerca das pessoas importantes que adquiriram as acções da minha alma nessa “bolsa do isolamento”.
E voltei para o silêncio do meu quarto.
Peguei num de muitos livros e li um parágrafo de uma qualquer página:
"Ah! Quantos homens nobres eu conheci que perderam a sua mais alta esperança.
A partir desse momento passaram a caluniar todas as esperanças elevadas"
Sorri...
"Assim falava Zaratustra..."
Pousei o livro...
"Não posso ler estas coisas agora... Não posso ser Eu agora..."
Post Scriptum I:
Deixei que o meu olhar morresse algures… num raio que tombou para lá do horizonte.
E aquele raio tinha tanto de ti como tu de mim.
A minha eternidade publicada.
Aquele raio deteve a minha atenção no meu segundo de vida.
Pude ser tu em mim, crucificando os meus valores.
Despedindo-me de tudo que foi meu: Eu.
Post Scriptum II:
Todos os dias desperto, arrependido por ser como sou.
Todas as noites adormeço, arrependido por não ter conseguido mudar.
A morte é uma longa espera. Como queria que fosse agora!
Porque raio te fui amar?
Sinto tanto a tua falta!
És tu a minha morte. Sim, és tu o raio da minha morte.
Publica o meu nome no teu rebanho nebuloso.
Suja o céu com esse nome.
Ad Aeternum…
Pensei:
Sem fracassos. Esse caminho.
Esse que percorro dentro de mim.
Nunca te direi o que queres ouvir.
Imagina o que sempre te quis dizer.
Está dito!
Agora não me olhes.
Sinto que os meus lábios se mexem.
Como se o teu presságio implicasse o meu movimento!
Sempre soube que a nossa felicidade... a nossa separação…
… … … … …
Seremos um, mas dois.
Felizes por não ter de haver um "depois".
Por não ter de julgar "o antes".
Pelo amor que existiu verdadeiramente num momento pequeno, mas grande.
Irei lembrar-te assim. Prometo.
Irei escrever-te, escrever-nos.
Como se fosse uma utopia. Mas é!
O momento em que não estás é o momento que guardo.
É o momento em que és minha... e de mais ninguém... mas livre...
Livre de mim. Amada.
Se me preocuparei com o que o mundo pensa?
Abandonei-o antes de ti.
Agora poderei morrer.
Post Scriptum III:
Não atingi os meus objectivos porque em cada momento da minha vida amei alguém.
Ariel d'Angoulême


