Sunday, April 29, 2007

Catarse

In Memoriam...

Sentei-me à mesa. Levantei-me.
Torna-se impossível digerir as palavras… oscilando dentro e fora de mim.
É um momento meu. Sinto-me estranho. Sinto-me tão Eu!
Saio da mesa enjoado de letras e tento vomitá-las num papel.


Idealizei:
Tentarei publicar a eternidade no olhar.
E talvez a prometa a alguém.
Mas a minha eternidade é luto. É dor.
Solidão.
Aceitas a minha eternidade?
Vem. Partilho-a contigo.
Seremos os dois sozinhos.
É tudo o que te posso oferecer.
Não te tocarei. Não te falarei.
Irei olhar-te uma vez apenas. Se quiseres, vem.
Vem ser sozinha comigo. Na minha solidão.
Juntos por nada.

Não prolongues a estadia. Não te tornes Eu.
Não queiras ser Eu.
Não me peças que te ame. Não queiras ter-me em ti.
Não queiras ser Eu. Nunca.
A solidão partilha-se na efemeridade a que os apaixonados chamam de eternidade. Depois evade-se.
Não me apaixonarei por ti.
Talvez me apaixone pelo que pensas de mim.
E essa visão será minha apenas. Fruto do meu Eu.
Vivendo o egoísmo da minha solidão. Na minha solidão.
É por isso que sou bom a ser sozinho.
Não te queiras tornar Eu.
Vai.
Já sabes o que é a eternidade.
Vai contar ao mundo que a transpiraste.
Vai morrer com esse mundo.
Deixa-me morrer sozinho.


Voltei para a mesa.
Alimentei-me, ingerindo garfadas de verosímil contestação, sorvendo goles de desespero.
Não me permiti um pensamento sequer acerca das pessoas importantes que adquiriram as acções da minha alma nessa “bolsa do isolamento”.
E voltei para o silêncio do meu quarto.
Peguei num de muitos livros e li um parágrafo de uma qualquer página:
"Ah! Quantos homens nobres eu conheci que perderam a sua mais alta esperança.
A partir desse momento passaram a caluniar todas as esperanças elevadas"

Sorri...
"Assim falava Zaratustra..."
Pousei o livro...
"Não posso ler estas coisas agora... Não posso ser Eu agora..."

Post Scriptum I:
Deixei que o meu olhar morresse algures… num raio que tombou para lá do horizonte.
E aquele raio tinha tanto de ti como tu de mim.
A minha eternidade publicada.
Aquele raio deteve a minha atenção no meu segundo de vida.
Pude ser tu em mim, crucificando os meus valores.
Despedindo-me de tudo que foi meu: Eu.

Post Scriptum II:
Todos os dias desperto, arrependido por ser como sou.
Todas as noites adormeço, arrependido por não ter conseguido mudar.
A morte é uma longa espera. Como queria que fosse agora!
Porque raio te fui amar?
Sinto tanto a tua falta!
És tu a minha morte. Sim, és tu o raio da minha morte.
Publica o meu nome no teu rebanho nebuloso.
Suja o céu com esse nome.

Ad Aeternum…

Pensei:
Sem fracassos. Esse caminho.
Esse que percorro dentro de mim.

Nunca te direi o que queres ouvir.
Imagina o que sempre te quis dizer.
Está dito!
Agora não me olhes.
Sinto que os meus lábios se mexem.
Como se o teu presságio implicasse o meu movimento!

Sempre soube que a nossa felicidade... a nossa separação…
… … … … …
Seremos um, mas dois.
Felizes por não ter de haver um "depois".
Por não ter de julgar "o antes".
Pelo amor que existiu verdadeiramente num momento pequeno, mas grande.
Irei lembrar-te assim. Prometo.

Irei escrever-te, escrever-nos.
Como se fosse uma utopia. Mas é!

O momento em que não estás é o momento que guardo.
É o momento em que és minha... e de mais ninguém... mas livre...
Livre de mim. Amada.

Se me preocuparei com o que o mundo pensa?
Abandonei-o antes de ti.

Agora poderei morrer.

Post Scriptum III:
Não atingi os meus objectivos porque em cada momento da minha vida amei alguém.

Ariel d'Angoulême

Thursday, April 26, 2007

Libertação...
Ouviste o tempo passar?
E o eco que regressou?
“Se me tens dentro de ti,
Nada tens pois nada sou.”


Foste artista ou foste a arte?
E quanta arte não te serviu?
Na minha arte sentenciada,
De ti… não resta nada…

Canto doce. É meu ou teu?
Lírica que me queima o peito…
Quanto a quis acreditar!
Quanto a tentei censurar!

Despedida. É sempre assim?
Para que lado? O errado?
Isto a que chamas fim,
É só o início do nosso fado!

Redime-te… liberta-te…
Liberta estas palavras…
Liberta a dor que não queres sentir…
Redime o corpo… Basta fugir.

Redime-me… liberta-me…
Ainda que o não queiras…
Anseio pelo conforto trágico:
“Meu amor, diz que me odeias.”

Ariel d’Angoulême

Wednesday, April 18, 2007

O amor é fodido

(…) O meu amor não era para ver. O meu amor foi feito para dar. Para guardar segredo, sem tu saberes. Não foi feito para ser trocado. Pensei que o meu amor estava protegido dessa felicidade. Era um amor sozinho e grande. Não estava preparado para receber fosse o que fosse da tua parte.
Não devias ter vindo atrás de mim, a fazer-me perguntas, a querer saber coisas que eu não te queria dizer.
«Como é que te chamas?»
«Como é que eu me chamo?»

Não devias ter reconhecido a minha voz, quando te telefonava, a dizer-te como estava perdido. Não devias ter falado comigo. Com a frieza da tua curiosidade a abater-se sobre mim, magoando-me a alma. Magoaste-me a alma. Eu não queria falar contigo. Não queria ser ouvido.
«Porque é que não vens falar comigo em vez de fazer estes telefonemas?»
«Se calhar, queres ir beber um chá! Beber um chá e comer um “scone”!»
E tu respondeste, a sorrir, a sorrir como se a minha aflição fosse engraçada: «Se calhar…»

«Eu amo-te!», gritei.
«O que é que isso tem de extraordinário? Diz-me!»
«Eu amo-te como nunca ninguém amou ninguém!»
«Porque é que há-de ser assim?», respondeste, beijando-me pela primeira vez. Eu estava tão tenso, não dei por nada, queria que se abrisse um buraco no chão e me engolisse. Mas tu estavas calma, como se estivesses habituada.
«Para ti pode não ser extraordinário, mas, para mim, é!»
«Cala-te», disseste, «Sabes lá se eu gosto de ti também…»

Gosto! Foi o que disseste. Foi «gostar» o verbo que empregaste. E eu não tive coragem de fugir de ti naquele momento e explicar-te que como tu gostavas de mim, eu gostava de ananás, de sair à noite, de comprar azulejos nos antiquários.

É tão difícil dizer «eu amo». Mas eu disse. Disse sem te conhecer de parte nenhuma. Sem contar com o deserto da minha alma, onde me pareceu encontrar-te nos maus momentos da minha vida, desde menino até agora, numa forma nunca muito diferente da tua.

(…) Não te pedi nada. Não fui eu quem falou primeiro em ser feliz. No dia em que me falaste nisso estive até às cinco da manhã sem dormir.

A culpa foi tua. Fui levado a viver ao pé de ti, a preocupar-me com os teus dias, a pôr-me a nu, escondendo o pouco que restava da minha solidão dentro da tua. Da solidão que era a minha. Da solidão que se apaixonou por ti. Que era, mais coisa, menos coisa – eu.

Mais de uma vez perguntei se ias amar-me para sempre. Mais de mil vezes. Não podes dizer que não te avisei. E por muito que jurasse que sim, por muito que me fitasses no fundo dos olhos enquanto dizias que o teu amor era como o meu, que não tinha fim, eu nunca acreditei em ti. Por isso é que eu estava sempre a perguntar. «Nunca vais deixar de gostar de mim, pois não?» O teu mal foi nunca teres feito essa pergunta.

A tua morte resolveu tudo. Nunca mais vou amar ninguém. É assim como deve ser. Desde o princípio dos princípios. Como é que pudeste apaixonar-te por mim com tanta facilidade e tão pouco sofrimento? Por mim, que nada valho. Por mim, que nada te dei. Como é que eu podia acreditar num tal amor?

Tenho saudades de ti. Mas não me custa sofrê-las, comparado ao que sofria quando estavas aqui comigo, deitada no meu ombro, a sonhar os teus sonhos, agarrada a mim, o meu amor, o meu amor a arder-me no coração, deitando fogo ao meu sossego, tanto era o amor que te tinha, e o terror e a certeza de perder-te.

(…)A vida é simples e fácil de perder. Mas o amor é fodido. E gostei de fodê-lo contigo… … … … …

Miguel Esteves Cardoso

Tuesday, April 10, 2007

Revolvendo o baú arcaico - II
"Podia..."
Podia… num dia igual a tantos outros…
Anunciar o mais que muito… temido e tido…
O mais que não mais conter consigo…
Sabendo poder… o não querendo…

Podia ter mentido… não me suspeitavas…
Podia ter fugido… não me procuravas…
E fugindo de mim mesmo… Mentindo-me…
Podia ter julgado que por um dia me amavas…

Podia morrer… instante em que me abraçavas…
Podia escutar esse bater… desejo?!?
Podia sublimar-me a cada gesto… cada beijo…
Podia ter julgado que por um dia me amavas…

Podia. Importa se estou a divagar?!?
Na infinidade dos dias que guardava…
Esse poder de ter sentido num olhar…
O amor de quem mais no mundo amava…

Contentamento… desmerecidamente obtido…
Eu… possuidor dos lábios que beijavas…
Porque me ocupa a tristeza e o abandono,
Se podia ter julgado que por um dia me amavas?

Podia muito… muito mais que muito…
Podia tudo e tudo mais que mais…
Podia ter… ou não te ter até…
Podia? Que devaneios tais!

E agora que sinto não poder mais nada…
Seja do tempo ou vida… impedimento…
Oh! Sensação de poder tudo novamente…
Como desejava repeti-la um só momento!

Nada pude…
Que ideias! Que desgaste!
Que podia ter eu feito,
Senão julgar que por um dia me amaste?

Ariel d'Angoulême