Saturday, March 31, 2007

Vivo estático...
Acordei…
Um gesto simples: Abri os olhos…
Encontrei-me num aperto que sempre considerara familiar.
Ainda assim, não o desejara… Não agora…
Não. Não cheguei a morrer…
Fora colocado aqui sem sequer ter tombado…
Vivo a sete palmos… Vivo continuarei…
Estático. Tomando o significado, dimensão e peso do tempo…
Condenado à eterna escuridão, desisti de me debater…
E deixei que a utópica morte se processasse lenta sem direito ao último suspiro…
Sonharei até ao dia em que venham retirar-me desta caixa…
Até lá… comerei os vermes…

Ariel d’Angoulême

Saturday, March 24, 2007

Juntos... sozinhos...
Porque perecia eu quando te quis entregar a vida?
Porque choro eu, indistintamente, esse desprezo?
Porque sinto insinuado o sofrimento que me atinge?
Esfaqueias o ar com palavras que insultam as minhas acções…
Silêncio…
Fuga…
Porque me custa? Custa-me tudo o que me arrasta…
Custa-me tudo o que se me parece correcto…
Porque não o queria. Porque não… porque tu…
Porque raio teve a vida de se tornar tão vil?
Silêncio…
Fuga…
Recordo as palavras, os gestos, as horas tornadas minutos…
Recordo o teu sorrir… que dizias extinto pela tortura do teu viver…
Recordo o meu sofrer pela tortura da tua falta… como agora…
Recordo-me o mal, forçosamente, quando recordo a saudade… e de novo…
Silêncio…
Fuga…
Como queria poder estar aí… afagar a tua mágoa com uma réstia de paixão…
Como queria despedaçar o orgulho que se ergue contra a minha vontade…
Como me custa não voltar a ver-te, ouvir-te, falar-te, tocar-te…
Como me custa não saber o que te move… se ainda te moves… Estarás aí?
Silêncio…
Fuga…
Que dor! Deixo escapar palavras que não devia… pensamentos que não devia…
Talvez por ter vivido a vida que não devia… Devia? Devíamos? Que desvario este!
Como sinto que te amo por cada vez que te fujo… Como sinto que te quero por cada olhar em que não te encontro… Como sinto! Raios… como sinto…
Queria tanto odiar-te e viver! Queria tanto que me odiasses e vivesses!
Silêncio…
Fuga…
Silencia-te… some-te… Não pelo mal, mas pelo bem…
Quando nos julgámos a cura, traduzimo-nos na pior das doenças…
Não morras de mim. Não quero morrer de ti… Curemo-nos antes que seja tarde…
Silencia-te… some-te… Esquece-me… Esquece-nos…
Não pelo mal, mas pelo bem…
Silêncio derradeiro…
Fuga definitiva…

Ariel d’Angoulême

Thursday, March 22, 2007

Anúncio banido da MTV
Porque é preciso relembrar...
Texto junto às torres: “2.863 pessoas morreram”
Texto junto à criança: 824 milhões de pessoas morrem de inanição no mundo”
“O mundo uniu-se contra o terrorismo. Devia unir-se também contra a FOME.”
Texto junto às torres: “2.863 pessoas morreram”
Texto junto ao homem: “40 milhões de pessoas infectadas com o vírus HIV no mundo”
“O mundo uniu-se contra o terrorismo. Devia unir-se também contra a SIDA.”
Texto junto às torres: “2.863 pessoas morreram”
Texto junto ao velho: “630 milhões de pessoas sem abrigo no mundo”
“O mundo uniu-se contra o terrorismo. Devia unir-se também contra a POBREZA.”

Friday, March 16, 2007

Revolvendo o baú arcaico - I
"Pecado chamado vida"
Alguém te conduz aos acessos do final…
Com secas palavras te revela desprezo…
E da emoção que teu corpo liberta,
Sinto gritos lamentando a vala que os aperta…

Que linha te foi esboçada, te foi cortada!
Que breve duração te leva hoje de mim!
Que sangue corre nas lágrimas que derramo!
Que sofrimento me causa quem demais amo!

Sinto frígido cada movimento que solto;
Sinto culpa em cada lágrima que poupo…
Fecho então os olhos, contemplo então melhor.
Sempre receei de ti a amargura… o pior…

Imerso em tristeza tal que não é minha,
Mas que atinge e dilacera… como uma longa espera…
Dita dor que abarcas num rosto possuído
Que me culpa por culpa minha não ter sido…

(...)

Teu silêncio é penitência que cumpro…
Estou de pé… extinto sobre os pés…
Transformo-te em tortura que me definha…
Sou a dor, porque a tua dor é minha …

Com a cabeça falecida sobre o peito…
Agito a comoção com o franzino soluçar
Das mágoas que na raiz estão contidas.
Na raiz da morte, mágoas vivas.

O vento consegue mover-me…
Traz consigo o deleite da tua pele
Devora-me deste pecado chamado vida
Devora-me. Seja a sentença proferida.

Alguém me retirou todo e qualquer direito.
Pequei? Pouco sei do fim:
Uma intuição criminal te guiou até mim
Tornando-me réu desse crime perfeito.

Ariel d’Angoulême

Thursday, March 8, 2007

Hurt
I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

What have I become
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Johnny Cash