A viagem...
“ (atendeu) …Estou sim? Com quem deseja falar? Estou? Estou? Quem fala?... (desligou)”“…um corpo robusto de metal de encontro a um corpo frágil de carne… rasga-o em pedaços disformes, tomando-o como troféu de uma luta breve…
Estende-o no asfalto como uma pintura macabra…
Cores confundem-se… fundem-se… num céu de fumo… num rio de sangue…
O tempo continuou a ser tempo e só algumas coisas mudaram…
Vida... morte...
Amor... …morte...
Perdão... … …morte…
Encanto... … … …morte…
Esperança... … … … … morte... morte… morte…
O dia fez-se noite… só para ele… apenas para ele… quem era ele?!?!”
“As pessoas aglomeram-se olhando um corpo desfeito coberto de penas e deitado sobre um lençol de rosas, como se de um anjo caído se tratasse… Escondem o olhar… Rezam… Desacreditam… Retiram-se…”
“…Hoje é um bom dia… Relembro os seus olhos, o seu cabelo, o seu perfume, o seu corpo…
Inspiro. Agrada-me tudo… Sinto tudo uma primeira vez, qual criança curiosa acerca das coisas do mundo… E sigo em frente…
Um olhar feliz me contempla pelo retrovisor… Sim, tenho um olhar feliz…
As árvores que ladeiam a estrada recortam o dia e… farrapos de luz pestanejam no meu corpo… Rasgos de luz que dançam com o mover do carro e pestanejam no meu corpo… Os seus olhos, o seu cabelo…
Sinto-me tempo… em mim é noite e dia… noite e… dia… noite… dia…
As árvores afastam-se vagarosamente e, à sua frente, erguem-se, rasteiros, muros de terra seca que se desdobram pelo horizonte… A luz não dança mais… O dia é pleno… O seu perfume… O seu corpo…
Só eu sou sombra de mim… Só o carro sombra de si…
Ao meu lado… outros carros, outras cores, outras caras…
Dou por mim reparando na forma como cada carro parece contrariar o movimento das próprias rodas, como se estas quisessem, a todo o custo, voltar para trás…
A ilusão que a velocidade proporciona…
Chapas de tom azulado anunciam a sua proximidade…
Os seus olhos… O seu perfume…
No banco de trás: Um ramo de rosas e uma caixa de penas...
Uma rosa por cada lágrima derramada… por cada ferida…
Foram tantas as cartas! Uma pena por cada carta escrita…
Estou próximo… 14km…
Ao lado, números embutidos em pequenas chapas brancas acarretam um leve sorriso, anunciando 13km… 12km… 11km…
Talvez devesse ligar-lhe. Uma chamada apenas… perguntar se está tudo bem…
Sentir-me-ia mais próximo ainda…
Não tem de saber que vou a caminho… a sua voz… Vou ligar-lhe…
As placas azuis e brancas continuam a surgir… Sucedem-se umas às outras e vão falando comigo… Azuis…Brancas… 11km… 10km... 9km... 8km... 7km… 7km… 7km… 7km… 7km… 7… 7… 7… 7…”
“…Como queria que soubesses que nunca te esqueci…
Nunca mais o teu olhar, o teu cabelo, o teu perfume, o teu corpo…
Como queria que soubesses que nunca deixei de te amar…
Como queria ter-te pedido que me perdoasses…”
Ariel d’Angoulême


