Saturday, January 27, 2007

A viagem...
“ (atendeu) …Estou sim? Com quem deseja falar? Estou? Estou? Quem fala?... (desligou)”


“…um corpo robusto de metal de encontro a um corpo frágil de carne… rasga-o em pedaços disformes, tomando-o como troféu de uma luta breve…
Estende-o no asfalto como uma pintura macabra…
Cores confundem-se… fundem-se… num céu de fumo… num rio de sangue…
O tempo continuou a ser tempo e só algumas coisas mudaram…
Vida... morte...
Amor... …morte...
Perdão... … …morte…
Encanto... … … …morte…
Esperança... … … … … morte... morte… morte…
O dia fez-se noite… só para ele… apenas para ele… quem era ele?!?!”


“As pessoas aglomeram-se olhando um corpo desfeito coberto de penas e deitado sobre um lençol de rosas, como se de um anjo caído se tratasse… Escondem o olhar… Rezam… Desacreditam… Retiram-se…”


“…Hoje é um bom dia… Relembro os seus olhos, o seu cabelo, o seu perfume, o seu corpo…
Inspiro. Agrada-me tudo… Sinto tudo uma primeira vez, qual criança curiosa acerca das coisas do mundo… E sigo em frente…
Um olhar feliz me contempla pelo retrovisor… Sim, tenho um olhar feliz…
As árvores que ladeiam a estrada recortam o dia e… farrapos de luz pestanejam no meu corpo… Rasgos de luz que dançam com o mover do carro e pestanejam no meu corpo… Os seus olhos, o seu cabelo…
Sinto-me tempo… em mim é noite e dia… noite e… dia… noite… dia…
As árvores afastam-se vagarosamente e, à sua frente, erguem-se, rasteiros, muros de terra seca que se desdobram pelo horizonte… A luz não dança mais… O dia é pleno… O seu perfume… O seu corpo…
Só eu sou sombra de mim… Só o carro sombra de si…
Ao meu lado… outros carros, outras cores, outras caras…
Dou por mim reparando na forma como cada carro parece contrariar o movimento das próprias rodas, como se estas quisessem, a todo o custo, voltar para trás…
A ilusão que a velocidade proporciona…
Chapas de tom azulado anunciam a sua proximidade…
Os seus olhos… O seu perfume…
No banco de trás: Um ramo de rosas e uma caixa de penas...
Uma rosa por cada lágrima derramada… por cada ferida…
Foram tantas as cartas! Uma pena por cada carta escrita…
Estou próximo… 14km…
Ao lado, números embutidos em pequenas chapas brancas acarretam um leve sorriso, anunciando 13km… 12km… 11km…
Talvez devesse ligar-lhe. Uma chamada apenas… perguntar se está tudo bem…
Sentir-me-ia mais próximo ainda…
Não tem de saber que vou a caminho… a sua voz… Vou ligar-lhe…
As placas azuis e brancas continuam a surgir… Sucedem-se umas às outras e vão falando comigo… Azuis…Brancas… 11km… 10km... 9km... 8km... 7km… 7km… 7km… 7km… 7km… 7… 7… 7… 7…”


“…Como queria que soubesses que nunca te esqueci…
Nunca mais o teu olhar, o teu cabelo, o teu perfume, o teu corpo…
Como queria que soubesses que nunca deixei de te amar…
Como queria ter-te pedido que me perdoasses…”


Ariel d’Angoulême

Thursday, January 18, 2007

Não me ames...
Hoje sou isto...
Apetece-me o refúgio na simplicidade...
Apetece-me o que fora tecido uma única vez,
rasgado vezes sem conta...
Quero uma vaga… estender-me no chão...
Algo real apenas... ou então
quero uma ária que quebre este sossego…
Um olhar que trespasse a água turva...
Algo utópico… Nem sei…
Não me perguntes o porquê.
Porquê?
Pedi que não mo perguntasses.
Sei que desejo cada vez mais a ausência...
Cada vez menos a tua permanência...
Quero que te vás... (Fica).
Não quero ser eu, nem teu...
Já não importa que me enganes...
Mas, se assim for... Por favor…
Fode-me, não me ames...

Ariel d’Angoulême

Friday, January 12, 2007

Da dúvida carnal...
foto de Filipe Pereira
Eterna prudência guardada como abrigo,
Expulsa de mim a destreza contida…
Recruta-me ao desprezo permanente
E na dúvida, abre nova ferida…

Eleva-se a qualquer outro juízo,
Destaca-se. Não importa de que forma…
Maravilha-me, quão vil fascínio
E na dúvida, de pesadelos me adorna…

Devora a conspurcada e reles mente
Que a precisão da cega dor não alivia…
Leva de mim a minúcia, a astúcia…
Na dúvida, não mais verei a luz do dia.

Murmura…entre um desagrado e um sorriso
Que me asfixia e, lentamente, me condena…
A sua boca, com retalhadas palavras, me ordena
Que a deseje… que lhe permaneça submisso…

De leve, se arrasta entre finas sedas…
E, voltando-se, me castiga, no leito quente…
Contém em si toda uma parte de mim
E na dúvida, me dissolve... fugazmente

Tão simples a alegórica simbologia
Incutida nesse corpo que me desperta!
E em mim, algo inexplicável se liberta…
Esse pecado que me segue... que me guia…

Silencias qualquer intenção, renegando
Ao curvilíneo corpo... e eu atento,
Teus suaves tecidos vou rasgando
Para abater, no auge, esse momento…

Abandonando o doce intento de profanar
A fragilidade infernal que me atrai…
Ostento a vera formosura… e me debato
À medida que o tecido rasgado cai…

Como um enfermo, me disponho à loucura
E no leito rosáceo, suavemente, te deito…
Me aperta e queima um compulsivo desejo
Que detona na carne… se esfuma em teu peito…


Repentinamente, tal qual um soluçar
Sinto o prazer desvanecer-se e acabar…
Como queria mais da viciosa deleitação!
Como queria ter amado a alma, como a carne
Que melancolicamente jaze agora no chão!

Ariel d’Angoulême

Sunday, January 7, 2007

A Dying Wish
Homenagem a uma amiga - 1ª Parte
“Saudade… liberdade…”

É tão frio o desejo que me queima em demasia,
Que me agita como um vento leve… tumultuoso…
Temo da natureza, esse contrastar… esse dia…
Essa noite, depondo em mim mágoa ou alegria…
Condensando… Apartando meu sentir penoso…

Venha a liberdade colher-te… que assim seja…
Venha num dia só, ultrajando tempo e espaço…
A serpente… Essa que te ouve, venera e deseja,
Atrai para seu túmulo de sapiência sobeja
Sublime musa, que habita na arte que abraço…


“Não sei quem deu a mão a quem, mas eu senti-a…”


Ariel d’Angoulême

Wednesday, January 3, 2007

Do jardim de pedra...
Regelado...
Sim... regelado...
Quanta frieza pintou todo um tempo passado...

A dor que me insulta...
Sempre que te procuro...
Por cada vez que choro o teu nome... do escuro...

Esta campa que visito...
Silêncio que se reflecte em mim...
Memórias desse tempo... neste banco de jardim...

Volta...
Traz de volta esse veneno...
Traz de volta o doce Inverno... gélido inferno...

Nunca mais...
Sei que nunca mais te terei...
Ainda que o sonhando... não mais o desejarei...

Adeus...
Sentar-me-ei sozinho... Seremos sozinhos...
No lugar onde, outrora, jurámos unir caminhos...

Adeus...
Adeus, sombra que não mais esquecerei...
A quem não mais direi... o quanto amei...

Adeus...
Até nunca... meu grande amor...
Guardarei de ti... a dor...

Ariel d'Angoulême