Saturday, December 30, 2006

Vincent (1982)
Vincent Malloy is seven years old,
He's always polite and does what he's told.
For a boy his age he's considerate and nice,
But he wants to be just like Vincent Price.

He doesn't mind living with his sister, dog and cat,
Though he'd rather share a home with spiders and bats.
There he could reflect on the horrors he's invented,
And wander dark hallways alone and tormented.

Vincent is nice when his aunt comes to see him,
But imagines dipping her in wax for his wax museum.
He likes to experiment on his dog Abacrombie,
In the hopes of creating a horrible zombie.

So he and his horrible zombie dog,
Could go searching for victims in the London fog.
His thoughts aren't only of ghoulish crime,
He likes to paint and read to pass the time.

While other kids read books like Go Jane Go,
Vincent's favorite author is Edgar Allen Poe.
One night while reading a gruesome tale,
He read a passage that made him turn pale.

Such horrible news he could not survive,
For his beautiful wife had been buried alive.
He dug out her grave to make sure she was dead,
Unaware that her grave was his mother's flower bed.

His mother sent Vincent off to his room,
He knew he'd been banished to the tower of doom.
Where he was sentenced to spend the rest of his life,
Alone with a portrait of his beautiful wife.

While alone and insane, encased in his tomb,
Vincent's mother suddenly burst into the room.
"If you want to you can go outside and play.
It's sunny outside and a beautiful day."

Vincent tried to talk, but he just couldn't speak,
The years of isolation had made him quite weak.
So he took out some paper, and scrawled with a pen,
"I am possessed by this house, and can never leave it again."

His mother said, "You're not possessed, and you're not almost dead.
These games that you play are all in your head.
You're not Vincent Price, you're Vincent Malloy.
You're not tormented or insane, you're just a young boy."

"You're seven years old, and you're my son,
I want you to get outside and have some real fun."
Her anger now spent, she walked out through the hall,
While Vincent backed slowly against the wall.

The room started to sway, to shiver and creak.
His horrid insanity had reached its peak.
He saw Abacrombie his zombie slave,
And heard his wife call from beyond the grave.

She spoke from her coffin, and made ghoulish demands.
While through cracking walls reached skeleton hands.
Every horror in his life that had crept through his dreams,
Swept his mad laugh to terrified screams.

To escape the madness, he reached for the door,
But fell limp and lifeless down on the floor.
His voice was soft and very slow,
As he quoted The Raven from Edgar Allen Poe,

"And my soul from out that shadow that lies floating on the floor,
Shall be lifted - Nevermore!"

http://www.youtube.com/watch?v=dqS4-zlJLS8

Tim Burton

Thursday, December 28, 2006

"Socalco da laranjeira"
Corria o ano de 1990, meados de Junho…
Encontrava-me sentado à sombra de uma figueira nas traseiras da casa da minha madrinha…
Não era um dia como outro qualquer, nem os pensamentos que me invadiam se baseavam nas ideias inocentes do costume. Não. Naquele dia pensava na morte e acerca da morte. E porquê?
Não via a minha prima há meio ano, porque estudava fora e só nos visitava nas férias…
Morrera, haviam passado dois meses. Soube-o pelos boatos… a boca da minha madrinha cerrou desde esse dia…
Não houve funeral ou, pelo menos, não tive conhecimento. Aliás, e também segundo os boatos: Não havia corpo. Na altura não fazia ideia do que queriam dizer com aquilo, mas não me senti no direito de questionar o que quer que fosse. Certo é que as férias tinham chegado e a minha prima não.
E permaneci ali, sentado e sozinho a pensar…
Tinha visto a face da morte na televisão uns dias antes. De uma qualquer guerra invadiram-me imagens de corpos flutuando num qualquer mar que os atirava freneticamente de encontro aos rochedos, desfigurando-os… contudo, nenhum daqueles corpos me era familiar e, talvez por isso, não tivesse dado a verdadeira importância à inevitável morte…
Mas a minha prima morreu. Era mais velha que eu talvez dez anos. Muito jovem ainda.
Com a morte dela desvanecera todo o meu direito à imortalidade. A morte deixou de ser uma coisa de adultos, passando a ser uma coisa minha também…
Apesar da dor da perda, tinha em consideração que a sua morte só contribuiria para alimentar um tormento que me perseguia há quatro meses: “O socalco da laranjeira”.

A casa da minha madrinha era um ponto ínfimo perante a vastidão de terrenos que a cercavam… A laranjeira estava situada precisamente seis socalcos abaixo do terreno onde a habitação foi construída…
O caminho que levava à laranjeira era bastante sinuoso, esguio e ladeado por extensos muros de pedra… sempre a descer…
Um riacho cruzava o “socalco da laranjeira” dividindo-o em dois…
Tanto quanto me lembro, o terreno era aplanado e limpo de um dos lados e, após atravessar o riacho por uma tábua de madeira, tínhamos então debaixo dos pés, um terreno escabroso coberto por um enorme tapete de laranjas apodrecidas pelo tempo. Desse mesmo tapete se erguia a laranjeira…

Faltavam dez minutos para o sino da igreja anunciar as cinco da tarde.
Nesse preciso momento uma voz familiar me ordenava que fosse buscar um cesto de laranjas…
Apesar do medo, tinha o meu orgulho… Peguei no cesto e segui o meu caminho…

Sempre estranhei o nevoeiro que se formava à medida que descia aquele desfiladeiro… ainda mais durante os meses quentes. Mas o que me atormentava não era o nevoeiro, nem a laranjeira… era sim o que surgia com o nevoeiro e se prostrava entre mim e a laranjeira…
Tinha passado três socalcos e já me era possível ouvir a sua respiração lá em baixo… Ela estava à minha espera… Sabia, certamente, que lá iria hoje…
Arrepiava-me… Como queria ter alguém ali comigo…
Passei o quinto socalco e, descendo um pouco mais… Sexto socalco…
Lá estava ela… Fitando o horizonte; metade do seu corpo imerso no nevoeiro. Como eu, também ela tinha um cesto na mão… O seu corpo era fino e hirto, adornado pelas típicas vestes rurais. Um lenço lhe cobria a cabeça e, desse modo, só me era possível ver-lhe parte da face enrugada. Não sei porquê, mas presumi que se tratasse de uma bruxa. Na aldeia falava-se imenso de bruxas…
Não me assustava a sua provável imagem, mas a sua rigidez. E estava viva… Ali…

Tinha de atravessar o riacho e isso significava ter de passar por ela…
O meu instinto dizia-me que ela estava ali para me magoar e eu sabia que poderia morrer. Sabia que não conseguiria sair dali são e salvo como das outras vezes e, muito provavelmente, não teria um funeral, porque permaneceria ali preso para sempre…
Após deixar fluir um misto de lágrimas e desespero, retomei o orgulho e atravessei sem olhar para ela. Não me tocou sequer. Permaneceu estática.
Subi à laranjeira, e comecei a encher o cesto. À medida que o fazia, observava-a e notava que ela simplesmente não se movia. Era tal qual um espantalho vivo.
Assim que dei por concluído o meu trabalho, a noção de que teria de atravessar para o outro lado novamente atingiu-me como uma flecha.
Parei. Inspirei fundo e obriguei-me a atravessar enquanto repensava o triste destino que me aguardava.
Assim que transponho a tábua que divide o riacho, a bruxa volta-se. Com o susto deixei-me cair no chão e, indefeso, vi a sua sombra cobrir todo o meu corpo…
Vislumbrei a sua face pálida e gemi: “Oh não! Não! Não és uma bruxa…”
Ela fitou-me e com seus lábios roxos sussurrou: “Diz à minha mãe que agora estou bem melhor… Ela que me procure no rio”…

Corria o ano de 1990, meados de Junho… E desde essa altura me questiono: “O que tem a vida de tão bom que a morte não tem?”

Ariel d’Angoulême

Wednesday, December 20, 2006

Algures entre o erro e o engano...
Questiono os sentidos... Que sentido fará?
Angustiar por algo angélico? Bélico? Não dá…
Desejo por um único momento retido em tantos...
Tantos suspiros… muitas dores… imensos prantos...

Esta teoria em que divago incansavelmente...
Que me pratica, que me instrui... sensivelmente...
Que me opõe, que me dispõe... que me liberta...
Que me atormenta com lucidez e me desperta...

É uma dor exacta... perfeita... real e crua...
É um corroer que, de tanto doer, atenua
Esta saudade de um tempo que não foi meu...
Esta saudade inabalável pelo que apenas doeu...

Trespassado pela fatal agonia de mais querer...
Uma infértil obsessão pelo inatingível. Serei credível?
Recorro à negação de tudo o oposto e suposto
Só por manter intacta, a vida, num corpo morto...

Simples... tão completo e repleto de vida o que aconteceu!
Tão desconhecido e intemporal, tão fugaz e magnífico!
Sugou toda minha força num gradual mover centrífugo
E estampou-me no chão... morto e torto... e nada me doeu...

Diante de mim, um espelhado eu se me reflecte...
Me dá luta e em mim desfruta medos escondidos...
Faz-me superar e desgastar a mais reles revolta...
E me corta a razão... dá-me alma e objectivos...

Aspira vícios e insolência, dotados de perpetual penitência...
Faz-me repensar os motivos da instintiva degradação...
E abruptamente, me dispara de novo contra o duro chão,
Onde acordo e me recordo de não querer acordar... Não!

Quão hediondo é este espaço... familiar e repulsivo...
Tão apertado pelo ar que nem o respirar consigo...
Tão certamente feliz naquele minuto de extinção...
Tão certamente fodido por me voltar a sentir tão vivo!

Ariel d'Angoulême
Nada meu...
Foram as palavras? Ou a boca que as disse?
Fora de mim? Ou dos olhos que me olharam?
Fora do sabor que esses lábios deixaram,
A causa dessa dor que tive, sem que o previsse?

Não sei se do gesto ou das mãos que me tocaram…
Não sei se da letra ou da mão que a escreveu…
Minha razão e sentimento, como um só, se entregaram.
E hoje sofro por ser mais teu que meu…

Ariel d’Angoulême

Wednesday, December 13, 2006

Um último adeus
Flua a dor como uma corrente agitada,
Percorrendo teus lábios vermelho sangue…
Mitiga a saudade de meu corpo exangue,
Num ímpio gesto… uma voraz dentada…

Erige em mim a prodigiosa eternidade…
Amaldiçoa-me… a favor dessa vontade…
Vive o jovial desejo que te explode no peito…
Esse impulso... esse batimento perfeito…

Entregues à volúpia, ao insaciável temor…
Bebamos do sangue, desfrutemos da aliança…
Tombemos, heréticos, num misto de ódio e amor…

Suspirando e revivendo os deleites desta dança,
Dou por mim regressando com satisfação e dor
À cova funda… enquanto grito: “Adeus criança”

Ariel d'Angoulême

Thursday, December 7, 2006

Embarquei...
Tempo… Ponderei sobre a ambígua existência e passagem;
Um evanescente sopro de saudade… tonalidade memorial…
Disputei da vontade, cada incisão vertical… cada palavra…
Vislumbrei o tom magenta colorindo meu braço. Ó dor fatal…

A vida contida em mim, ignóbil fraqueza… Permanece…
Uma vez mais entregue ao etéreo tormento… Como lamento!
Que me adianta tatuar meus braços nesse níveo tom cicatriz?
Prova detestável de remorso por ter feito mal, o mal que fiz…

Precioso esse metal, agudo, que levo de encontro ao peito…
Pudesse eu penetrar esta dor que me consome, me angustia…
Relembro… O sol voltará… Com esse astro, um novo dia…
E eu aqui… Perdido nesta subliminar revolta… Desfeito…

Podias ter-me morto de uma só vez… Num só gesto…
Antes assististe a essa embarcação sórdida… peculiar…
E preso neste mar negro, este misto de lágrimas sumidas
Encontro, a meu lado, todos os que fizeste embarcar…

Ariel d'Angoulême