Thursday, October 26, 2006

Falecimento
Não transparecem teus olhos, pura beleza.
Não vejo mais nas palavras, natural encanto.
Divago em incertezas e é tal o meu espanto
quando retiro à morte, singular certeza...

E as doces palavras que outrora houvera dito...
Verdadeiras. Talvez mais que a tua vontade.
Ainda assim não te privei dessa verdade;
desse amor... Oh, tão sentido! Falado, escrito...

[...] porém, agora, diluindo em triste pranto
os cavos olhos que te serviram de manto;
…cobriram da vil cobiça, rude impureza,

farás da fina chuva de minha alma, (que há-de
varrer o amor até que se quebre, se apague)
o licor que, envenenado, terás à mesa...


Ariel d'Angoulême

Thursday, October 5, 2006

Relembra
Vem visitar-me... promete que o farás.
Sob este lençol mármore, pedra fria,
Promete que me visitarás um dia.
Traz contigo essa fragrância lilás...

Vem visitar-me... de vestes negras adornada
Alimenta teus sonhos (mentiras de outrora),
Como alimento, da carne, os bichos de agora,
Até ao dia em que, de mim, não reste nada...

Vem visitar-me... apenas para relembrar.
Vem. Como se algum dia conseguisses amar...
Surge assim... Em real tormento, triste fado.

Vem visitar-me, saudosa de um falso amor...
Esse sentimento não te trará tanta dor
como a que senti quando, por ti, abandonado...


Ariel d'Angoulême

Wednesday, October 4, 2006

Dúvida
Dúvidas, dúvidas... Ó triste duvidar!
E as rígidas certezas... servir-me-ão de quê?
São mais que uma dúvida, mas nessa ninguém crê...
Pois duvido da certeza... certo do questionar...

Explica-me a morte... Oh, rude sorte...
Não se trata apenas de cair falecido.
Talvez morrer seja então julgar-se vivo,
Mesmo após perder o rumo, perder o norte...

Que podemos nós crer, ditar ou afirmar?
Que poderíamos nós ter levado a bom porto?
Sem custos... sem, enfim, ter de pensar...

Ainda assim, repenso e questiono, triste, absorto...
Porque teimas tu, vil criatura, em te enterrar,
Se sou eu quem se encontra frio e morto?


Ariel d'Angoulême
Amada coveira
Do tempo, lembro do mal. Do bem... nada, nada...
Lembro das lágrimas que foram contidas
e do carinho com que me lavavas as feridas
Esse, como sal temperando carne rasgada.

Lembro da vida, de como fora ilusionada.
Lembro das palavras faladas, ouvidas...
Dos doces regressos, das tristes partidas...
De cada beijo que minha boca, à tua, roubava.

Lembro tanto! tudo que fora e não mais serei.
Essa morte de onde vim e para onde voltarei...
Pois que sejam teus braços a carregar-me...

Seja essa terra o sangue, as flores o choro,
Os gritos, os gemidos, meu requiem, final coro
Que susterás com frieza ao enterrar-me...


Ariel d'Angoulême
Quem a quem...
Quem raio és tu? Anjo da morte?
Que chega e me preenche de alegria...
Dizendo que me ama... me abandona num só dia,
Deixando-me entregue a mim, à minha sorte...

Quem raio és tu? Que te leva a ser assim?
Dizendo que odeia a quem escreveu, a quem amou...
Repetindo em iguais palavras o que p'ra si sou...
Sei que amanhã também me odiará a mim...

Cá estarei, não para odiar nem p'ra esquecer.
Cá estarei, firme como um rochedo, p'ra fazer ver
Tudo o que negaste ou, por vontade, não viste:

"- Se é dor que queres despertar no homem...
Repara o quanto essas dores te consomem,
Pela soma de todos os que em tempos iludiste..."


Ariel d'Angoulême