Friday, September 22, 2006

Sofrimento (in)digno
E... enfim... amar é isto...
Mais sofrer que viver...
Mais chorar que sorrir...
Mais querer que ter...

Amar é isto...
Deixar que o tempo passe lento...
Sem agarrar as rédeas de caminho algum...
Entregar todo o amor do mundo na esperança de receber algum...
E acreditar em fadas e duendes... esse eterno invento...

Amar é isto...
Riscos escassos no papel da persistente saudade...
Amar é isto...
Ver amadurecer a dor aquando do florir da idade...

Amar é isto...
Um passo rápido até ao topo do abismo...
Amar leva-nos a ser alguém que sempre desejamos ser...
Amar leva consigo, em findo tom, a nossa vontade de viver...

Amar é isto...
Uma sentença perpetual de palavras e silêncios...
Um vazio permanente dentro e em redor; é este espaço...
Amar é acreditar em tudo, sabendo do nada...
Amar faz de nós tolos soprando uma vela apagada...

Amar... Oh amar...
Custoso fim que mal se inicia em nós...
Acreditamos em tudo tão além das nossas capacidades, possibilidades...
Acreditamos que o nosso sofrimento, ainda que penoso, traga mais amor ainda...
Porém, eis que a possibilidade... a capacidade... finda...

Amar... Posso sorrir?
Será uma piada? Ou sorrio para não ter de me entregar ao pranto?
Tão negra a minha alma quanto as minhas vestes. As minhas dúvidas...
Errado ou certo... mais errado que certo... amar é isto... um sumiço...
De tudo que o outro ser nos tira e leva... é isto e pronto...

Amar...
É ganhar vontade em permanecer sozinho por jamais se sentir acompanhado...
Amar é divorciar o nosso corpo dos amigos, da vida, do mundo...
Amar é este mal. Este sentimento que bem lá no fundo...
Encobre sempre a razão... E nos mantém o selvagem anseio aprisionado...

Amar...
Teria eu ouvido palavras? Lido palavras? Por quanto tempo?
Teria eu sentido um toque? Um beijo? Ou acordei simplesmente?
Teria eu desejado a solidão novamente... sofrer por coisas diversas e amenas...
Ao invés de as ignorar e sofrer por uma pessoa apenas?

Amar...
Eu amo... porque amar é isto... e isto sou eu...
Nada... Sou nada porque me separei de tudo...
De tudo que para mim deixou de fazer sentido...
Amo-te aqui... sozinho comigo...


Ariel d'Angoulême

Wednesday, September 20, 2006

Servo da morte
Servo da morte...
O silêncio que me fere a facadas da vil desconexão...
Como uma pausa definitiva que se repete... que a mim remete...

Servo da morte...
Essa compassada necessidade de tudo...
Que em saudosas lágrimas pinta o torpe tempo...
Incendiado pela decadência do meu estado...

Servo da morte...
Esse falso sorriso que o meu corpo repele, atrai...
De mim, sombra decadente sob um sol fecundado pelo negrume da noite...
Extingo a minha vida decalcando o pensamento entre frágeis dedos...
Esses, que trémulos, balançam ao suspiro corpóreo e ignorado...

Servo da morte...
Esse afogar de idealismos pela ausência de objectividade. Oh, saudade...
Rumo a mim, procuro um fim... Renego à vida que só eu posso ter...
Não quero ser meu. Nunca... Desespero por nada ter, que queira... que cegueira...
Doce melodia que a ceifa transporta aquando desse corte desejado...
Sorrio... Para que caia esboçando a tristeza, tombando sobre o lado errado...

Servo da morte...
Em poesia amena. O pó que encobre a intenção. Essa digestão amarga, tumultuosa...
Decadente... Quão decadente a figura... e se afigura... e em tom sublime se redime...
Outra vez? Novamente? Repetiu-se? Iludiu-se? Viveu...
Riscara eu um dia o que podem ler aos olhos espairecidos da minha condição...
Ousara eu escrever, ou ler e repetir, sem me crer ou ver ou ter, sem me plagiar...
Terei eu ousado servir, por prazer, por me fartar...

Servo da morte...
Em som de amor primaveril envolto em triste cor outonal...
Pintado a sabores de nada meu e tudo teu...
Sentido a visões de tortura e impulso...
Tocado... Assim fora...
"Ri-te, ser raro... e paga o preço...
A vida não é escolha que provenha de ti..."
Morri...


Ariel d'Angoulême

Tuesday, September 19, 2006

Des(p)erto
Pudesse eu viver em pensamento
Sem que a realidade me perturbasse
Fosse eu desejado, um só momento...
Pois então que aí ficasse...

Pudesse eu fechar os olhos e cegar
Todo o meu ser… manifesto... interno...
Pudesse eu desejar tempestades
Em verão, que só de inverno...

E desejado, em completude incomparável
Susteria em mim suspiros, morreria
E desse doce sono, eterno encanto...
Matasse eu fome de Amor, num só dia...

E em sorriso cadavérico e alegre...
Pediria da vida nada mais que um fim
Para que na derradeira paragem
Afecto ao tempo, me encontrasse a mim...

Em corpo alheio me sinto desfigurado
Indigno, qual escravo aos olhos do patrão
Qual Abel, qual Caim... Qual irmão?
Qual certo ou perto... De mim deserto...


Ariel d'Angoulême