Sofrimento (in)digno
E... enfim... amar é isto...Mais sofrer que viver...
Mais chorar que sorrir...
Mais querer que ter...
Amar é isto...
Deixar que o tempo passe lento...
Sem agarrar as rédeas de caminho algum...
Entregar todo o amor do mundo na esperança de receber algum...
E acreditar em fadas e duendes... esse eterno invento...
Amar é isto...
Riscos escassos no papel da persistente saudade...
Amar é isto...
Ver amadurecer a dor aquando do florir da idade...
Amar é isto...
Um passo rápido até ao topo do abismo...
Amar leva-nos a ser alguém que sempre desejamos ser...
Amar leva consigo, em findo tom, a nossa vontade de viver...
Amar é isto...
Uma sentença perpetual de palavras e silêncios...
Um vazio permanente dentro e em redor; é este espaço...
Amar é acreditar em tudo, sabendo do nada...
Amar faz de nós tolos soprando uma vela apagada...
Amar... Oh amar...
Custoso fim que mal se inicia em nós...
Acreditamos em tudo tão além das nossas capacidades, possibilidades...
Acreditamos que o nosso sofrimento, ainda que penoso, traga mais amor ainda...
Porém, eis que a possibilidade... a capacidade... finda...
Amar... Posso sorrir?
Será uma piada? Ou sorrio para não ter de me entregar ao pranto?
Tão negra a minha alma quanto as minhas vestes. As minhas dúvidas...
Errado ou certo... mais errado que certo... amar é isto... um sumiço...
De tudo que o outro ser nos tira e leva... é isto e pronto...
Amar...
É ganhar vontade em permanecer sozinho por jamais se sentir acompanhado...
Amar é divorciar o nosso corpo dos amigos, da vida, do mundo...
Amar é este mal. Este sentimento que bem lá no fundo...
Encobre sempre a razão... E nos mantém o selvagem anseio aprisionado...
Amar...
Teria eu ouvido palavras? Lido palavras? Por quanto tempo?
Teria eu sentido um toque? Um beijo? Ou acordei simplesmente?
Teria eu desejado a solidão novamente... sofrer por coisas diversas e amenas...
Ao invés de as ignorar e sofrer por uma pessoa apenas?
Amar...
Eu amo... porque amar é isto... e isto sou eu...
Nada... Sou nada porque me separei de tudo...
De tudo que para mim deixou de fazer sentido...
Amo-te aqui... sozinho comigo...
Ariel d'Angoulême

