Divagação noctívaga

E subitamente dou por mim estimulado pela carência de refúgio, e corro… para a praia, numa destas noites...
Descalço-me e regaço as mangas. É meu desejo sentir os elementos...
E caminho em direcção ao mar, esse em que ostento o espelhar da lua...
Enquanto caminho sinto os grãos de areia por debaixo de mim, a ondular às passadas...
Sinto a brisa a abordar-me levemente...
E sigo sempre ao encontro de um rochedo, ao qual subo. Nele me sento...
Defronte... Apenas mar e céu… escuro...
E entre essa negrura, lua e estrelas...
Em doce tranquilidade, deixo-me cavalgar em espírito em direcção á lua, essa que banha o mar em raios de fogo níveo...
Ostento-a... suspensa no céu... Magnífica...
E quando volto a mim, já te tenho nos meus braços... Aconchegada...
A brisa arremessa o teu cabelo de encontro a mim...
Quão fascinante é o ondular desse vestido à brisa inconstante, efémera...
E um suspiro se solta... sim, pareceria um, mas seriam dois suspiros, em perfeito uníssono, como sempre... aquando de uma batida mais forte que nos levita os corpos e os deixa acalmar de novo…
As nossas faces encostadas, olhando na mesma direcção… Em meias voltas se friccionam e sinto a tua pele como seda...
E sinto-te mais de encontro a mim... como eu de encontro a ti...
A necessidade cada vez maior se sentir a proximidade, o abrigo...
E vivo esse instante como se desperto estivesse...
Olho o horizonte uma vez mais... e vejo oportunidade...
Existe uma linha ténue que separa o céu do mar durante o dia...
Mas... à noite...essa linha é parte do céu, e ambos conseguem tocar-se...
Como nós...conseguimos tocar-nos… se cogitarmos um pouco e… essa linha não existe...
Teremos de acreditar em tudo o que vemos?
Quem nos garante a fiabilidade da nossa capacidade de distinção entre o autêntico e o ilusório?
Não terei eu vivido esse instante, como muitos outros na tua companhia?
E se algures, alguém o vive da mesma forma?
Esse alguém... Tu...
Porque não tu num outro lado, banhada pela brisa, sentada num rochedo?
Ainda que tomada pelo sentido metafórico, porque… terei eu estado mesmo numa praia?
E esses dois momentos, em exemplar sintonia, conseguem uma incorporação instantânea e encantadora em ambos os seres, aquando da altura em que cerramos os olhos, apertamos as mãos e permitimos que os elementos nos invadam os sentidos...
E a natureza envolvente toma a tua forma... a minha forma… A nossa forma…
E sinto-te no vento, na areia... Ouço-te no mar, vejo-te na lua...
Tenho-te comigo...
Depois… num último retorno à hipnose lunar tudo se volta a dissipar...
E me retiro dessa praia... Na esperança de lá voltar contigo uma noite...
De poder sentir-te sem necessidade de ilusão...
Ainda assim… vivi contigo esse instante…
Porque a nossa mente tem esse poder…
E até que nos seja possível materializá-lo… Sonhemo-lo…
Ariel d'Angoulême