Tuesday, July 25, 2006

Pois que assim seja...
Pois que assim seja...
Até que se me esgote a inspiração...
E tal dor me entregue à fatalidade...
Esse sadismo próprio que povoa as minhas veias... e em corrosão,
Em caprichoso corte... desfecha essa virtude interna...
Esse corte figurado que me lubrifica, em adrenalina...
Como uma chuva qualquer... que apenas não cai... em mim hiberna.
E me apaga... é uma tempestade...
Qual turbilhão de emoções... Eu nada sinto...
Revolta-me a inquietação e a quietude...
Revolta-me a singeleza, amiúde,
Me revolta a vida em si...
Revolta-me tudo o que me afaste de ti...

Pois que assim seja...
Me pese essa vil desventura... Essa decomposição permanente...
Que me torne eu submisso a mim...
Odeio esse sentido... nesse sentido... que nada sente...
Extrai de mim pedaços... pedaços de nada meu...
Suspiro... Inocente e perdido... Acusado... por acusar...
Pelo meu eu... por te ter amado... Por te amar...
Que me erradica por me insistir teu...

Pois que assim seja...
Seja eu consumido pelo tempo...
Essa eterna fome de carne endurecida...
Essa carne perfumada pela ausência de vida...
Essa podridão que não durará o momento...
Em cada ferida, um sórdido horror... um lamento...
E de entre este apocalipse humano...
Revelo, por entre a dor que lhe furto...
Se nele algum dia vida houvesse...
Mais fome de si teria... Essa fome que de si carece...
Consumiu-se sozinho, pela agonia...
Por querer... Apenas queria...

Pois que assim seja...
Cessei por vontade...
Porque me trarás nova vida...
Arranca-me do passado e aspira o tempo em si...
Envolto em devoção… aceita-me... abriga-me em ti...
Arranca-me de tudo... de tudo que fora meu...
Sou teu...


Ariel d'Angoulême